February 9th, 2006

rosas

pássaros de inverno + diário da índia

Terminei um dia destes a leitura de Pássaros de Inverno, de Jim Grimsley. É o primeiro romance, em termos cronológicos, do autor, mas que eu li já depois de ter lido outros dois: Rapaz de Sonho e Conforto e Alegria. Aliás, neste último, o autor toma como protagonista a personagem principal de Pássaros de Inverno, apesar de os dois romances se moverem em distintos terrenos e obedecerem a diferentes programas. Pássaros de Inverno é um romance sobre uma infância marcada pela violência e o abuso, pondo em cena uma família pobre do sul dos Estados Unidos, com um pai alcoólico e violento, uma mãe que tenta reconciliar os papeis de vítima e defensora dos filhos, e cinco crianças, entre as quais duas sofrem de leucemia. Isto dito assim, parece muita desgraça, e é-o com efeito, e o livro nunca foge a abordar de forma gráfica e desabrida o seu tema. Mas é igualmente um livro comovente sobre a capacidade de sofrer e de sobreviver, quando todas as adversidades parecem ter sido convocadas. É um livro triste, naturalmente, por vezes mesmo tristíssimo. Mas nunca é um livro pobre ou desgraçado, nunca explora o tema sob a perspectiva da facilidade.
Já em lista de espera está o último livro de Grimsley editado em Portugal (sempre pela Teorema), Como Me Afoguei (My Drowning).

Entretanto estou a ler o Diário da Índia, do embaixador Marcello Duarte Mathias (Edição Gótica), que estou a achar muito interessante. Aliás, é daqueles livros para ler de lápis em punho para ir assinalando as observações sempre felizes e acutilantes, embora por vezes um pouco tendenciosas, do embaixador. O Diário começa com a entrada do dia em que lhe foi comunicada a missão em Delhi, e abarca todo o tempo que ela dura. Embora não se trate exactamente de um diário diplomático, essa é uma das facetas mais interessantes do livro, quer no que toca às análises do embaixador da situação na Índia, em Portugal e no Mundo, quer no que toca à própria rotina da vida diplomática. Na fase do livro em que vou, por exemplo, e que é ainda a inicial, a preocupação dominante parece ser arranjar instalações condignas quer para a residência quer para a chancelaria.
Aliás a este propósito refiro a entrada relativa ao dia 16 de Novembro de 1993, preenchida integralmente com a descrição da cerimónia, não apenas solene mas mesmo pomposa, da entrega das cartas credenciais, e que termina desta forma:
«E largámos depois, Farouk ao volante de bandeira desfraldada e farda nova, felizes ambos e já perfeitamente embaixatoriais, em direcção à espelunca da Chancelaria.»
rosas

memórias de um sábado

'Memórias de Um Sábado com Rumores de Azul', um espectáculo de Paulo Ribeiro, pela companhia fundada pelo coreógrafo, esta noite no TAGV. O ponto de partida do espectáculo é aliciante: assinalar os dez anos da companhia, criando uma coreografia nova a partir de quatro outras peças anteriormente feitas. Tenho pena de não conhecer nenhuma dessas peças porque teria sido uma mais-valia muito interessante. Mas mesmo assim gostei bastante do espectáculo, sobretudo em dois aspectos: a enorme coerência da linguagem utilizada, que quase permite reduzir, ou melhor condensar sessenta minutos de espectáculo num único movimento, num único gesto ou passo; e o entrosamento absoluto entre a dança e a música, que foi criada em palco por Victor Rua e Nuno Rebelo. Raramente tenho visto uma ligação tão visceral, tão materialmente densa, entre a coreografia e a música. Neste espectáculo também se poderia usar o enigma do ovo e da galinha, sendo impossível dizer qual é o impulso fundador, se o movimento se o acorde.