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innersmile
Comprei o cd com a banda sonora de Match Point. Como se sabe, neste filme, Woody Allen trocou os habituais temas de jazz clássico por árias de ópera. Dos nove temas incluídos, 5 são recuperações de gravações de Enrico Caruso, entre elas a que é uma das minhas árias favoritas, Mi par d’udire ancora da ópera O Pescador de Pérolas, de Georges Bizet.
Conheci essa ária há muitos anos, e de uma forma muito inesperada. Na época eu praticamente não ouvia, nem conhecia, música clássica (ou jazz), mas, para além do pop e do rock, e da música portuguesa, sempre ouvi e gostei muito de música brasileira. Em meados dos anos 80 o Ney Matogrosso editou um disco intitulado precisamente O Pescador de Pérolas, onde interpretava esta ária, pela qual me apaixonei à primeira audição. Essa interpretação do Ney juntamente com uma meia dúzia de outras coisas (como a banda sonora do filme Amadeus) foram responsáveis por eu perder o medo e começar a ouvir música clássica.
Nunca ouvi a ópera O Pescador de Pérolas na íntegra, na verdade só conheço a ária em causa e pouco mais. Mas sempre que a ouço, aquilo move-me de uma maneira extraordinária, consegue transportar-me para lugares e estados de espírito que não consigo definir, lugares de uma beleza triste, de uma melancolia extasiada (como «aquela praia extasiada e nua», do poema de Sophia).

Mi par d’udire ancora
Ascoso in mezzo ai fior
La voce sua canora
Qual di cigno in amor

Oh! Notte di carezze
Gioir che non há fin
Bel sogno, folli ebrezze
Oh! Sovvenir divin!

Delle stele del cielo
Al tremolo balen
La vegg’io d’ogni velo
Render libero il sem!
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innersmile
Esta noite, ao serão em casa dos meus pais, e a propósito da notícia no jornal sobre o julgamento de dois caçadores que mataram uma cerva, a conversa foi ter a um poema medieval da autoria de um jogral de Elvas e actualizado pela Natália Correia («como cervo lanceado / que se vai do mundo a perder / da companhia das cervas»). No disco memorável, gravado em 1968, que testemunha uma noite que Vinícius de Morais passou em casa de Amália Rodrigues, Natália diz, entre alguns outros, esse poema. Claro que acabámos a ouvir o cd.
A minha mãe contou-me que o LP que ainda existe lá em casa desse disco foi um dos três únicos que saíram a tempo da discoteca em Nampula, antes da Pide ter ido à loja apreender todos os exemplares. Não sabia esta história, mas lembro-me perfeitamente de que na casa da minha infância esse disco se ouvia baixinho, e de janelas fechadas e cortinas cerradas, por causa das coisas.
De repente a minha mãe comenta com surpresa o facto de todos os intervenientes no disco, Amália, Vinícius, Natália, Ary dos Santos e David Mourão Ferreira, terem já desaparecido! Incrível, lembro-me desse disco, lembro-me dele entrar na minha vida, ainda na infância. Lembro-me de todos esses intervenientes estarem vivos, de os ver na televisão, de conviver com eles, ou melhor, de conviver com os sinais das suas vidas, com as novidades que deles chegavam, com os sucessos e os passos dessa sempre imprevisível ocorrência que é estar vivo. Às tantas, sem pré-aviso, na amena preguiça do serão, os tipos estão todos mortos, e já só existem no registo do cd e na precariedade da minha memória. Ó que filha-da-putice…