February 3rd, 2006

rosas

munich

Começando pelo fim. Na última sequência de Munich, Avner e Ephraim conversam num jardim em Brooklyn, junto ao East River, tendo por pano de fundo o muro de arranha-céus de Manhattan. Ephraim tenta convencer Avner a regressar a Israel, à casa, e à causa, porque tanto lutou e por que ainda tem de lutar. Avner, que acabou de fazer uma dolorosa, e silenciosa, opção, convida Ephraim a vir a sua casa, conhecer a sua mulher e a sua filha, comer do seu pão. Ephraim recusa e afasta-se para o lado direito do plano. Avner volta-se e também se afasta, em sentido contrário. A câmara afasta-se, alargando o enquadramento para a ponta sul de Manhattan, onde se destaca a silhueta das torres do World Trade Center. Legendas com o desenvolvimento da história que se contou, e fade para o genérico final.
Quase que não seria preciso acrescentar mais nada, já que esta derradeira cena do filme explica o programa que Steven Spielberg pretendeu desenvolver com este filme. Spielberg pega no atentado do Setembro Negro contra a delegação de Israel aos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, que inauguraram, de certa forma, o terrorismo moderno que utiliza o poder dos media para potenciar o efeito de horror das suas acções. A partir daí, o filme segue as peripécias de um comando estabelecido por ordem directa da Primeira-Ministra de Israel, Golda Meir, para eliminar os estrategas do terrorismo palestiniano e mentores do ataque de Munique, apresentando o eco das acções terroristas de retaliação, pondo em terreno uma escalada de violência que, como nos diz o epílogo final, continua em crescendo até aos dias de hoje.
Percebe-se a polémica que o filme tem levantado: ninguém sai bem da fotografia. Nem a OLP, que aparece no filme como uma ameaça sem rosto e sem alma, nem o Estado de Israel, que parece não perceber que não se consegue construir uma casa com paredes de sangue. Nas sequências iniciais, vemos as reacções das famílias dos mortos no atentado, os israelitas mortos pelos terroristas, os palestinianos mortos pela polícia. Há dor e perda dos dois lados da barreira, e nenhum deles tem o privilégio do martírio. Se já isto era suficiente para inquietar o espírito de todos aqueles que se acomodam a uma visão maniqueísta do mundo, o que o filme nos tenta provar nas quase três horas seguintes é ainda mais impiedoso: que tentar resolver um conflito com a morte dos outros, não só o agrava, como nos mata a nós próprios. Cada morte, mata-nos também um pouco, e da morte não se consegue construir nada.

Notável que Spielberg corra riscos tão grandes, quando o poder comercial do seu cinema lhe podia garantir uma carreira de sucessos fáceis e inócuos. Notável que Spielberg, como já fizera nos mais recentes War of The Worlds e The Terminal, prossiga um trabalho de reflexão acerca da América pós-11 de Setembro, e que o faça no território do cinema popular, do cinema das salas, do cinema do público. O que cimenta o seu lugar entre os grandes criadores do cinema norte-americano, que sempre usaram a capacidade intervencionista do cinema sem ceder à necessidade do apelo do público. Uma das coisas felizes do cinema é precisamente essa: situar-se nesse ponto difícil em que se cruzam a arte e a indústria.
Notável que Spielberg não envelheça, que continue a ter uma segurança, uma habilidade e uma frescura narrativas que transformam cada novo filme seu numa aventura humana e divertida, de onde parece que saímos sempre um pouco mais crescidos.
Viva o Cinema, é o que sempre me apetece gritar quando vejo um filme de Steven Spielberg.