?

Log in

No account? Create an account

(no subject)
rosas
innersmile
Passei o dia da última sexta-feira a tentar pensar em qualquer coisa interessante para escrever sobre Mozart. Para falar com franqueza, a única coisa que me ocorreu foi usar o lugar-comum de que se comemoravam os 250 anos sobre o nascimento do compositor que constitui a única prova minimamente convincente da existência de deus. Acontece que desde há muitos anos que eu tento cumprir uma norma que aprendi numa velhinha canção dos Secos & Molhados e que diz que «eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto». Admito que nem sempre obedeço à risca, mas a maior parte das vezes até sou capaz de me calar quando acho que não tenho nada a dizer.
Além disso, a única forma entusiasmante de comemorar o nascimento de Mozart que sou capaz de me lembrar, é passar um serão a assistir a um concerto ou a um recital, prazer que, infelizmente, não tive nesse dia comemorativo.
Entretanto, um dos canais de televisão (não sei qual) achou que a melhor maneira de assinalar a efeméride foi passar o filme de Milos Forman, Amadeus. É um belíssimo filme, um dos meus preferidos, mas, com franqueza, há tantas gravações das óperas de Mozart que é preciso ter muita imaginação para não pensar nesta coisa mais comezinha de assinalar o aniversário de nascimento de um compositor passando a sua música. Mas vá lá, porque nos outros canais Mozart só teve direito a notícia no telejornal.
Quanto ao filme, li as notas que alguns blogs publicaram. Comentários interessantes uns, outros de puro diletantismo presunçoso, como infelizmente é tão frequente na blogosfera lusitana. Mas quase todos eles coincidiam na opinião de que o filme de Forman não é sobre Wolfgang A. Mozart, que o filme retrata como um pateta genial, mas sobre Antonio Salieri (ou uma versão fantasiada de Salieri) e tudo o que ele possa representar: o triunfo da mediocridade, a teoria do fracasso.
Não concordo. Eu acho que o verdadeiro centro do filme de Forman é a própria música de Mozart. É isso que torna o filme tão diferente e fascinante. O truque do realizador (ou do dramaturgo Peter Schaffer, que escreveu a peça e a adaptou para argumento do filme) foi tomar um olhar que era capaz de reconhecer a excepcionalidade divina dessa música. Por isso, o protagonista central do filme é Salieri, e por isso vemos Mozart sob o seu olhar crítico e perplexo. Ele não acredita que aquele tipo meio apatetado, de gargalhada ridícula e infantil, tenha sido escolhido por deus como veículo da sua música.
Recordo uma das cenas emblemáticas do filme: Constança leva a Salieri um conjunto de pautas de Mozart, pedindo-lhe que a ajude, vendendo-as. Admirado com o facto de as pautas não terem a mínima rasura, apesar de serem originais e não cópias ou transcrições, Salieri começa a desfolhá-las, e o filme reproduz as peças à medida que as respectivas pautas se vão sucedendo, como se Salieri conseguisse, pela simples leitura, escutar a música divina.


Encontrei um texto já antigo aqui no innersmile, deve ter sido na altura em que comprei o dvd, e onde acho que expresso bem a ideia que tenho do filme.
“Amadeus é um desses filmes extraordinários que Milos realizou, muito por obra da peça de teatro de Peter Shaffer que, ao invés de escrever uma biografia de Mozart, optou antes por escrever uma peça sobre a música genial de Mozart. A perspectiva do filme é, como se sabe, a de Antonio Salieri, compositor da corte, que conta, em flashback, como a chegada de WAM a Viena veio abalar a sua vida dedicada a deus e à música: ao mesmo tempo que detesta a personalidade infantil e histriónica de WAM, admira, com um fascínio feito de amargo ciúme, a sua música. ‘A anedota de Deus’, como lhe chama Salieri, que acredita que Deus escolheu a mais horrenda das criaturas para dar a conhecer a sua música. É uma inveja mortal, já que Salieri dedica toda a sua vida daí em frente a tentar prejudicar Mozart, acabando, nesta versão fantasiada da história, por provocar a sua morte.
Mas o principal triunfo do filme, é que põe a música de Mozart no centro da história, todo o filme, toda a intriga, toda a encenação, serve única e exclusivamente a música. Em vez de escolher alguns temas mais populares e fazer deles o mote da história, o filme opta antes por percorrer grande parte da obra de Mozart usando as diversas peças como se fossem andamentos da história que quer contar.”

Entretanto, ontem no Por Outro Lado o entrevistado foi Pedro Burmester. Já devo ter dito isto por aqui dezenas de vezes, mas é sempre tão fascinante ouvir alguém falar de alguma coisa que ama e conhece bem. Foi delicioso ouvi-lo falar da forma como aborda as peças, da sua relação com os seus autores preferidos e daquilo que neles o fascina, dos outros intérpretes que ele ouviu e ainda ouve. Há, é inegável, uma vaidade pessoal que se adivinha, apesar de também ser evidente que PB tem consciência dela e a tenta ‘domesticar’. Mas provavelmente essa vaidade é a outra face do talento e do sucesso. Acho que a parte da entrevista de que mais gostei foi quando ele falou do Mário Laginha. Porque foi muito genuíno e sincero, porque se nota que há ali admiração e amizade, mas talvez sobretudo porque o que ele disse do Laginha corresponde à ideia que se transmite para o público. É que se a postura do Burmester em relação à música passa assim pela linha que vai da diva à paixão, no Laginha nota-se uma dedicação toda feita de entrega, humildade e prazer, muito gozo e prazer em servir a música.

Ainda ontem, e também na rtp2, estreou a série ‘Roma’. Eu estava cheio de expectativa em relação à série, porque ouço falar nela há muito tempo e porque o Império Romano é um assunto que me interessa muito. Este primeiro episódio ficou, devo dizer, um pouco abaixo do que eu estava à espera. Talvez porque o paradigma, para mim, é o ‘I, Claudius’, que é uma coisa excepcional de bem escrita. Achei ‘Roma’ um bocadinho ‘Gladiator’ a mais, uma tentativa de fazer as coisas à la Riddley Scott, pelo menos na representação da violência e da brutalidade. A ver vamos, os próximos episódios.