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o monstro de sant'anna
rosas
innersmile
«Esta carta então apócrifa, egoísta, orgulhosa, que se quer uma essência das cartas, utópica e abstracta como uma melodia vermelha, entoada por uma mulher que talvez nem seja engenheira, talvez a louca em trajes fétidos no pátio do asilo e que se chama Jussara, mas assina Beatriz como quem se veste de princesa para um amante inventado; que inventa ainda um cachoeira, uma casa, uma cidade e até seu prefeito; esta louca que talvez até nem seja mulher, mas um homem solitário em seu quarto acanhado e que constrói para si uma amante louca em nome de quem remete a si mesmo ou ao léu uma carta que tenha a duração escrita de uma noite.»

É um dos parágrafos finais de 'Uma Carta', a primeira das três novelas que compõem O Monstro, de Sérgio Sant’Anna (Cotovia). Transcrevo-a para aqui porque tenho a impressão de que nessas escassas frases está contida a definição de literatura. A literatura é isso, essa carta apócrifa, egoísta, orgulhosa, essencial, utópica e abstracta, uma cortina que se abre para relevar uma outra cortina que se abre para relevar uma outra cortina e uma outra e outra e tantas quanto durar a escrita de uma noite.
A segunda das novelas, que dá título ao volume, é a minha favorita, e consta de uma entrevista de jornal a um assassino. Li-a num ápice.
O Sérgio Sant’Anna, de quem este já o terceiro livro que leio (os outros foram o romance Um Crime Delicado, e o volume de contos O Voo da Madrugada, este último igualmente editado em Portugal pelos Livros Cotovia), é brasileiro e é um dos meus escritores de língua portuguesa preferidos. Pela qualidade da sua escrita, mas sobretudo pela inventividade da sua narrativa. Os seus contos e novelas são lições de como é possível pegar numa ideia que seja o menos convencional possível do ponto de vista dos estilos literários, e ir construindo, com rigor e mestria, uma narrativa perfeita, que se vai revelando aos olhos do leitor com uma clareza muito grande. Costuma-se dizer que nada é mais complexo do que a simplicidade, e tenho a certeza de ser o caso do Sérgio Sant’Anna, os seus textos são complexos, têm níveis de leitura e camadas de significados, podem ser literais como a história que contam (sim, porque todos eles partem desse princípio fundamental que é ter uma história para contar) e densos como espelhos velados que se multiplicam e desmultiplicam; mas são sempre limpos, fáceis de ler, sem gorduras, claros e transparentes, mesmo quando vamos avançando ao longo da narrativa perdidos, sem sabermos onde ela nos vai levar, como de resto acontece em duas das novelas deste O Monstro.
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innersmile
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