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ora então vamos lá
rosas
innersmile
Esta campanha eleitoral para as presidenciais não me motivou minimamente, razão porque nem sequer me tinha apetecido escrever sobre elas aqui no innersmile. Ao contrário do que aconteceu noutras ocasiões, em que andei por aqui a fazer campanha eleitoral porque achei que tinha obrigação de fazer o que pudesse para influenciar o resultado. Mas vamos ao que interessa.
Vou votar no Soares.
Fiquei muito desiludido quando o PS o escolheu para candidato. Achei que foi uma decisão pessimista, cobarde e calculista. Pessimista, porque partia do princípio que o Cavaco tinha as eleições ganhas. Cobarde, porque perante esse cenário teve medo de ir à luta. Calculista, porque se escolheu não o candidato que tinha mais hipóteses de ter um bom resultado, mas aquele que mais facilmente concentraria sobre si as responsabilidades da derrota, livrando o PS e o governo de um embaraço. Achei injusto para o Mário Soares, que, apesar de tudo, já tinha idade para ter juízo e deveria ter resistido à tentação de fazer um braço de ferro final com o seu ‘querido inimigo’ Cavaco.
Se o desafio, de derrotar um candidato vencedor à partida, era muito grande, então o PS, quer dizer o Sócrates, deveria ter arriscado muito. Tinha sido, por exemplo, a ocasião própria para testar uma candidatura feminina, e há mulheres no PS com o perfil adequado para o efeito. Uma candidatura desse tipo iria galvanizar o eleitorado, iria dar interesse às eleições, e era uma jogada tão arriscada que, em caso de derrota, toda a gente iria comentar que o país não estava pronto para uma mulher na presidência e ninguém se iria entreter a desancar no governo.
Porquê então, apesar disso tudo, votar em Soares? Por duas ordens de razões: negativas e positivas. Quanto às primeiras, porque, apesar de tudo, o Soares ainda é o que sobra quando começo a eliminar hipóteses. Votar Cavaco está fora de causa. Não gosto do homem, nunca gostei, não me identifico com a sua ideia de Portugal e dos portugueses, não me agrada o discurso. Esta campanha, aliás, só confirmou uma ideia que eu já tinha, a de que o Cavaco tem um discurso hipócrita e tão retórico como os piores. Aquela história de ele não ser político é uma treta, o tipo está na política há quase trinta anos, e mesmo quando parece que está fora, vai gerindo muito bem as suas intervenções. Há cinco anos que ele vem preparando esta candidatura, e se isso é estar fora da política, vou ali já venho. O ponto é que ele só usa esse discurso porque acha que consegue dessa forma atrair a classe média, que está descontente com os políticos.
Está igualmente fora de questão votar no Alegre. Irrita-me uma certa postura dele de aristocrata republicano, de bardo oficial da aldeia, um tipo cuja existência basta para enriquecer o país e justificar que lhe paguem por isso. Está igualmente fora de questão votar no Louça, pelas mesmas razões que não voto no Bloco de Esquerda: não percebo o discurso nem a ideologia.
Entre votar no Jerónimo e no Soares, mon coeur balance. Quer dizer, balançava. A pequeníssima diferença é que, apesar de tudo, a candidatura do Jerónimo tem mais aquele carácter de contar armas, de não perder uma oportunidade para afirmar o discurso de sempre do PC.
Mas apesar destas razões negativas, há também razões positivas que me levam a votar no Soares. A primeira é que, por contraste com os outros candidatos, o Soares é sempre, e sempre foi, ‘wysiwyg’ – está à vista, não engana ninguém, não se dissimula nem finge coisas que não é. Ele é aquilo que ali está, para o bem e para o mal. E é aquilo que sempre foi. Está um pouco gaga, pois está. Atrapalha-se, perde as estribeiras com mais facilidade, comete mais gaffes do que costumava cometer, é verdade. Mas mantém a argúcia e a capacidade de ler o mundo à sua volta. Mantém o instinto político, como ficou patente no debate com Alegre. Mantém a visão, a capacidade de ver para a frente. Soares tem, continua a ter, uma ideia para o país, sabe precisamente o lugar onde gostaria de ver Portugal chegar.
Além disso Soares é um optimista, acredita no povo português, não acha que sejamos uma cambada de mandriões que foge aos impostos e tem fraca produtividade, que parece ser a ideia que as nossas elites actualmente têm dos portugueses. Eu acho que, nos tempos de enorme dificuldade económica e social que atravessamos, é preciso optimismo e crença no futuro. Basta de depressão.
Já não é o que era? Pois, se calhar é verdade. Mas eu acho que, mesmo com os defeitos todos, com os defeitos que a idade agravou, Soares é, no panorama destas eleições presidenciais, o único candidato que faz sentido. Para mim, claro. E é por isso que vou votar nele no Domingo.

match point
rosas
innersmile
Parte do gozo do filme de que vou falar tem a ver com a incerteza quanto ao desfecho final. Apesar de não revelar (muitos) pormenores do enredo do filme, pode resultar do texto o sentido do desenlace da história, o que estraga a surpresa e compromete o interesse. Estais avisados: advance AYOR!


Havia uma canção no disco Spanish Train and Other Stories (1975), do Chris DeBurgh, que começava assim: 'Dennis is a menace with his «anyone for tennis?»' O Woody Allen não é menace nenhuma quando nos faz o mesmo convite no início de Match Point, que começa com o seguinte pressuposto: numa partida de ténis, quando a bola está a ser trocada de um para o outro lado do court, há um momento em que a bola bate no rebordo da rede e fica uns instantes ali a girar. Não há nada que possamos fazer. Se tivermos sorte, a bola cai para o outro lado da rede e fazemos o ponto; se tivermos azar, ela cai do nosso lado e perdemos. As duas horas seguintes são passadas a demonstrar, por vezes de forma rigorosamente literal, esta tese.
Match Point é seguramente o melhor filme de Allen dos últimos tempos. Não vou ao ponto (como já li) de dizer que é o melhor dos últimos vinte anos, mas é seguramente melhor do que os últimos três ou quatro. Sobretudo porque é um filme muito meticuloso, com aquela precisão maníaca e obsessiva que era uma das marcas do cinema de WA. Ultimamente tínhamos um pouco a ideia de que Woody se estava a abandalhar um pouco, por preguiça ou por não se fascinar o suficiente pelas histórias que inventava para os seus filmes. Aqui não, volta a haver detalhe, volta a haver o requinte do plano e da sequência. E isto apesar de ser um filme à primeira vista muito diferente daquilo a que estamos habituados em Woody. A começar pela banda sonora: Allen abandona as velhinhas faixas de jazz e desta vez dá-nos ópera, velhinhas faixas de ópera. Depois, é a primeira vez que me lembro de Woody, a personagem, não entrar num filme de Allen o realizador. É que mesmo quando não entra como actor, há sempre uma personagem que é a personificação de Woody, mas desta vez isso não acontece, não há nenhuma daquelas personagens que seja Woody.
Mas a maior diferença relativamente ao cinema de Allen a que estamos habituados, é que o filme passa relativamente longe do clima de paranóia e obsessão que caracteriza habitualmente os filmes do realizador, nomeadamente as suas 'sexual comedies'. Quando Woody Allen foi mais brilhante, foi quando elaborou acerca de um tipo que tinha algumas dificuldades em lidar com aquilo que poderíamos denominar a normalidade nas relações humanas, e quando tornou essas dificuldades o próprio centro dos seus filmes. Se bem que neste Match Point não estejamos a falar propriamente de pessoas que se relacionem umas com as outras de forma mais ou menos limpa, a verdade é que o centro do filme não é isso, mas a própria acção, as peripécias. Estamos perante um filme de género, e esse género não é 'woodyallen', é um thriller, um thriller cómico, ou irónico-desencantado, um whodunnit.
Apesar das novidades, Match Point não falha algumas das características a que nos habituámos a ver no cinema de Allen: o refinamento da escrita, o ambiente sofisticado, até os personagens, que, se repararmos bem, são aquilo que Allen deve considerar as versões inglesas das suas personagens nova-iorquinas: cultas, educadas, afluentes, disfuncionais q.b. para terem algum interesse. Infelizmente, enquanto o olhar de Allen sobre Manhattan e os seus habitantes é muito genuíno, há em Match Point uma dose de cliché bastante razoável. Aliás, um dos aspectos curiosos deste 'Um Lobisomem Americano em Londres' é que por vezes temos a sensação de conseguir 'ler' as repérages que Allen há-de ter feito para o filme.
Como já referi, a premissa do filme é a de que se tivermos sorte a bola bate na rede e cai para o lado certo do court. Depois de explanar a sua tese, o filme conclui que tu podes ser o tipo mais imoral, mais canalha, podes enganar a tua mulher e matar a tua amante grávida para preservar o teu casamento de conveniência, podes até matar uma velhinha inofensiva e considerar isso um dano colateral (no seu recorte psicológico, a personagem de Chris é a melhor personificação que eu vi no ecrã do Tom Ripley da Patrícia Highsmith), enfim podes ser o maior crápula, que, se a sorte estiver do teu lado, não te acontece nada de mal. Não deixa de ser uma terrível, mas deliciosa, ironia, pensar que tu podes ser um tipo que engana a tua mulher e se casa com a própria filha adoptiva, que, se a bola cair para lado certo, estás safo.
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