?

Log in

No account? Create an account

romeu e julieta
rosas
innersmile
Mais do que uma encenação, o que se propõe nesta produção de Romeu e Julieta dirigida por John Ratallack, é uma adaptação do clássico de WS. E, claro, é sempre um número muito arriscado tentar ‘mexer’ numa peça assim tão perfeita. Já vi algumas tentativas, no teatro e no cinema, umas que resultaram muito bem, e outras um fracasso.
Romeu e Julieta é a minha peça preferida de WS, talvez porque seja a que conheço melhor, porque já a li algumas vezes (ajuda ser pequena e simples no enredo), mas também porque foi a que vi mais vezes produzida, quer em palco quer no cinema. Gosto do ritmo da peça, gosto do contraste entre o ‘puro amor’ e o clima de violência em volta, e gosto do texto, das falas, tem frases muito poéticas e intensas.
Ratallack optou por cortar a peça em dois (não exactamente a meio) e fazer um espectáculo em dois tons: um mais luminoso, de comédia, na primeira parte, e um mais sombrio, de tragédia, na segunda. Pessoalmente, acho que o tom de comédia foi um pouco forçado. Note-se que resulta, há momentos muito divertidos, mas parece-me que se forçou um bocadinho o texto, a matéria original. Talvez porque, em vez da farsa, que possivelmente se adequava melhor ao objectivo (caricaturar um pouco o clima da época e a rivalidade entre as famílias), se optou pelo burlesco, que tem um risco muito grande: com enorme facilidade nos faz esquecer o contexto, a história, e nos concentra no próprio efeito cómico. O público respondeu bem, mas não deixa de subsistir a dúvida se a opção pela comédia, inclusivamente com um ou outro apontamento mais brejeiro, não terá sido precisamente com a intenção de seduzir um público que, e sem qualquer preconceito elitista, vai a este espectáculo sobretudo atrás dos actores popularizados pelas novelas.
Pouco a dizer da cenografia e dos figurinos, a não ser que se conseguiu um bom equilíbrio entre a exigência dramática e a necessidade de leveza de forma a poder trazer o espectáculo em itinerância. Pareceu-me igualmente bom o trabalho de adaptação do texto, sem ceder muito à modernização da linguagem e mantendo uma boa noção de ritmo, essencial no teatro de WS. O que mais me impressionou favoravelmente foram os actores, enfim, alguns deles. Impressionou-me muito o André Gago e a Custódia Gallego, principalmente do registo de comédia, sobretudo o AG que possui enormes e variados recursos técnicos e os sabe usar com rigor e efeito. Delicioso vê-lo naqueles subtis apontamentos que definiam e davam à peça o carácter burlesco. Tanto quanto sei, o AG é um actor com muita formação, que domina e utiliza várias técnicas teatrais, e isso nota-se. Pouco a acrescentar ao conhecido talento do Diogo Infante e do João Lagarto que são sempre irrepreensíveis. Aliás, a experiência teatral do JL, do DI e do AG nota-se nomeadamente na forma como projectam a voz, com aquela noção perfeita de que têm de ser ouvidos, e percebidos!, na última fila do balcão, e só ouvi-los debitar as falas é já por si um prazer para o espectador.
Em suma, foi um belo espectáculo, quem nos dera poder assistir a este tipo de produções, bem feitas, com rigor, com preocupação de chegar ao público, com mais frequência. Mas, claro, para além disso tudo o que subsiste, e o que subsiste na memória, é sempre o fabuloso texto de WS, aquelas frases que já conhecemos e que, apesar de as termos lido e ouvido bastantes vezes, têm sempre o condão de nos arrebatar do lugar e de nos transportar a um certo balcão de uma casa afluente, numa noite de luar em Verona.
Tags: