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«Não se via vivalma, apenas traços de uma antiga ocupação que eram como restos de uma festa interrompida. É isto que fazem as guerras: congelam a meio os gestos das coisas funcionando e deixam depois que o tempo vá corroendo esse retrato, até que o que reste só dificilmente possa fazer lembrar como elas foram um dia.»

Dificilmente se pode dizer coisa mais certeira do efeito 'esvaziador' da guerra. Mas o que me prendeu a atenção foi logo a primeira frase, «traços de uma antiga ocupação que eram como restos de uma festa interrompida». Porque foi precisamente isso que eu senti quando percorri há três anos as ruas de Maputo e percebi nelas, como uma pele mais funda, os restos da festa interrompida de quando a cidade se chamava Lourenço Marques.

A citação é do mais recente livro de João Paulo Borges Coelho, Meridião, a segunda parte de Índicos Indícios, uma colecção de 'estórias' que têm por tema e cenários a beira-mar de Moçambique. São mais cinco contos passados, como o título indica, no sul do país, enquanto Setentrião, o volume inicial, se passava no centro e no norte. Dos cinco contos há dois que deviam se de leitura obrigatória nas escolas: em Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana, conto a crescer para novela, a história de Herculano, trabalhador emigrado na África do Sul («talvez no corte de cana-de-açúcar, talvez escavando no escuro da mina») regressa, a pé e entrando pela extremidade sul do país, à sua aldeia natal trazendo um presente para o pai. Ao longo das doze pontas de praia que tem de atravessar, Herculano descobre, como diz o autor no prefácio, que o paraíso pode esconder o inferno. O tema é de óbvias e assumidas ressonâncias clássicas, a começar pelo nome do herói.
O outro conto obrigatório é o curtíssimo A Força do Mar de Agosto que conta, com uma imaginação delirante e uma linguagem de tom feérico e popular, como uma manhã os pescadores tentaram deitar ao mar da baía de Maputo os seus xitatarrus para descobrirem que aparentemente (e nesta história a única coisa real é a aparência) o mar tinha desaparecido da baía!

João Paulo Borges Coelho é, na minha mais que humilíssima opinião, o melhor ficcionista da literatura moçambicana, e um dos mais entusiasmantes escritores de língua portuguesa. O que parece que há, como dizia Álvaro de Campos, é pouca gente a dar por isso. Ninguém descreve como ele as cores, o humor, a vitalidade, o estado de espírito, a riqueza imensa da nação moçambicana, de nação em sentido cultural e identitário. O facto de ser natural do Porto só prova que, mais do que o sítio onde nascemos, a nossa casa é, como se dizia numa canção antiga, o lugar onde pousamos o chapéu.

Já há excertos deste livro, e mais irão aparecer, no blog À Sombra dos Palmares.
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