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jarhead
rosas
innersmile
Gostei bastante de Jarhead (e juro que não foi – só – por o filme parecer uma espécie de fantasia masculina homoerótica), apesar de achar que o filme sofre de algumas das irresolúveis contradições e tensões de que sofre habitualmente o cinema de Sam Mendes. Mas há uma coisa que é indiscutível nos seus filmes: a fotografia, a maneira de filmar, a composição do plano, servem de tal maneira a narrativa, que é impossível descolar o ambiente visual criado da história que se pretende contar; e dizer isto, na minha opinião, é logo à partida falar da essência do cinema, daquilo que dá prazer no cinema. Contar visualmente uma história de tal forma que se se pretender traduzi-la por palavras há sempre qualquer coisa essencial que fica irremediavelmente perdida.
Aquilo que eu acho que mais resulta em Jarhead (para além dos gajos que são todos podres de bons) é o facto de haver um espécie de duplo registo na maneira como o filme é feito. Por um lado o retrato da vida militar, passem os lugares comuns que são difíceis de contornar, é muito feito num registo de muita adrenalina, quase como se houvesse uma celebração daquele lado muito físico, do excesso de virilidade, uma certa glorificação do militarismo, e que corresponde a um determinado cliché destes filmes da vida dos tropas. Por outro lado, e parece ser esse o ponto do filme, esse esforço físico é posto ao serviço de nada, nunca se passa nada, o próprio horror que o filme retrata precede sempre, ou substitui mesmo à última da hora, a acção dos protagonistas. Um dos personagens comenta isso mesmo, que vieram à guerra, a guerra acabou, e não dispararam um único tiro.
De certa forma isto trivializa a guerra, que se torna numa espécie de vídeo-game em que quem joga e eventualmente ganha nunca aparece, em que a deslocação maciça de meios e homens (o filme vai contabilizando o número de homens no deserte, ultrapassando o meio milhão) traduz no terreno interesses de que nunca chegamos a ver o rosto ou sequer a saber o nome.
Por outro lado, outra das mensagens do filme parece ser, e se calhar é a que mais me interessou, é a de que o inferno do teatro de guerra é apenas o inferno menos mau que a guerra cria. A verdadeira guerra, o verdadeiro inferno, é aquele em que a guerra transforma toda a vida do soldado que ainda lhe resta viver. Pelo menos foi assim que eu interpretei a frase inicial e final das mãos e da carabina: as mãos que seguraram um dia a carabina nunca mais a vão esquecer, nunca mais a vão deixar de segurar. E francamente, os casos que eu conheço (e são alguns) de pessoal que participou na guerra colonial confirmam muito esta tese.
Tudo somado, o que o filme de Sam Mendes parece dizer (para além de que o Pai Natal nunca mais será o mesmo depois de Jake Gyllenhaal) é que a guerra, e particularmente estas guerras modernas que os Bush pai e filho foram travar ao golfo arábico, é apenas um paranóico jogo de interesses de que não há sobreviventes: ou se morre rápido nela, ou se morre devagar se se consegue sair dela vivo. Por mim não posso concordar mais.

Não sei se deva mencionar o facto de o filme estar cheio de gajos em muito boa forma física, que passam o tempo meio despidos, a fazerem qualquer espécie de actividade física ou a tomarem duche, naquilo que poderá ser uma descrição muito razoável do paraíso. Além disso, há uma cena em que o Jake Gyllenhaal aparece todo nú, vestido apenas com um barrete de natal na cabeça e outro barrete de natal na cabeça, que me fez voltar a acreditar no Pai Natal.


edit: está aqui um tipo a esmifrar-se para conseguir alinhavar umas ideias acerca de um filme, e depois o João Lopes, neste post do seu blog, diz tudo muito mais certeiramente em duas ou três frases.
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