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(no subject)
rosas
innersmile
Ontem estive a ver o documentário 'Cantigamente', de José Álvaro Morais, que vem como extra do dvd do filme Quaresma. O documentário pretende estabelecer uma ligação entre a música e a política, tentando fazer a leitura da situação política através da história do que foi a música popular. Este episódio realizado por JAM foca a década de 40 e, naturalmente, vai buscar muita da documentação ao cinema, aos filmes da chamada comédia à portuguesa, até porque esse tipo de cinema tinha muitas e óbvias relações com o teatro popular e, também por aí, com o universo musical. O documentário inclui vários tipos de registos que vai intercalando: imagens dos filmes, entrevistas com alguns dos seus protagonistas e especialistas, imagens de actualidades, daquilo que se denomina por ‘news reel’ e alguns sketches propositadamente filmados para o filme (onde reconheci alguns actores e onde vi pela primeira vez a representar uma figura um pouco mítica do teatro português, o figurinista Jasmim).
Numa determinada sequência aborda-se a figura da Tatão, que protagonizou três ou quatro dessas comédias à portuguesa, com entrevista à fugaz actriz (feita em 1975). O filme mais popular de todos os que fez foi 'O Pai Tirano', de António Lopes Ribeiro, e com, entre muitos outros, o seu irmão, Ribeirinho e o Vasco Santana. Uma das linhas narrativas do filme é a paixão assolapada que o Ribeirinho tem pela Tatão.
O documentário mostra então uma cena do filme, de que eu não me lembrava nada, em que o Vasco Santana, ensaiador do grupo de teatro amador que quer levar à cena a peça O Pai Tirano, se queixa a uma das suas co-protagonistas, de que o Francisco Mega, o Ribeirinho, anda a faltar aos ensaios porque está apaixonado por uma 'cinéfila', isto dito com evidente depreciação. Sai-se então o Vasquinho com esta tirada de mestre:
«Anda-me aquele pateta platónico tolo pela Tatão»
Parti-me a rir, claro. Entre outras coisas, era este aprumo de linguagem, esta capacidade de escrever bem, em bom português, e com este nível elevado de sentido da comédia, do trocadilho, da própria música das palavras, e de escrever bem para cinema, que fazia a monumental diferença destes anos pródigos do cinema português.