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innersmile
Não tenho lido o Expresso, e por isso não vi ‘ao vivo’ a famosa manchete do milhão: uma sondagem feita pelo jornal permitia concluir que cerca de um milhão de portugueses é homossexual. 7% dos inquiridos admitiriam ser homossexuais e 2,9% bissexuais.
Se a perspectiva de um milhão de conterrâneos meus partilhar a minha orientação sexual parecia ser entusiasmante, para não dizer mesmo excitante (mau grado ser pouco provável que esse milhão todo alguma vez se encontrasse ao mesmo tempo no quarto escuro do Bric), confesso que a percentagem não me impressionou muito. Já não é de agora que certos estudos apontam para uma percentagem dessa grandeza (acho que era esse o número defendido pelo célebre Alfred Kinsey), se bem que números mais realistas situarão a percentagem dos homossexuais exclusivos, ou seja aqueles que têm uma bissexualidade reduzida, em cerca de metade disso, ou seja na ordem dos 4 a 5 por cento.
Mas entretanto, ontem, no blog pontomedia, de António Granado, li a 'small print': afinal a sondagem incidiu numa amostra relativamente pequena e pouco representativa da população portuguesa, e mesmo a extrapolação dos 9,9% para o mais redondinho milhão era um pouco abusiva.
Claro que fiquei chateado, ah pois claro que fiquei, com esta cena. Primeiro porque é sempre incómodo e perturbador apanharmos um jornal, para mais um que se pretende sério e institucional como o Expresso, a manipular assim tão descaradamente as informações. Mas sobretudo porque não percebo muito bem qual é o objectivo de trazer para manchete uma notícia deste teor que se sabe que é, no mínimo, inexacta; não entendo qual é a intenção, o que é que se pretende com este tipo de acção.
Claro que o que me incomoda é o conteúdo da notícia, ou seja, o facto de se tratar da homossexualidade. A primeira questão, aliás, tem a ver com a própria necessidade de 'os' contar. Posso pensar nessa necessidade de vários pontos de vista - sociológico, social, jurídico, político, até médico – mas não percebo qual o sentido jornalístico da contagem. Faz diferença quantos são? Têm mais ou menos direitos consoante forem 10, 100, 100.00 ou um milhão? De alguma forma a manchete do Expresso relaciona a contagem com a questão do casamento e com as presidenciais. Porquê? A admissibilidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo depende do seu número? Preocupa alguém o eventual peso eleitoral dos homossexuais?

Por triste ironia, neste momento em que me preocupa este exemplo de mau comportamento jornalístico onde ele não seria de esperar, anuncia-se a morte de um dos decanos do jornalismo português, Carlos Cáceres Monteiro. Duas questões prévias: a primeira é que não tenho uma imagem romântica dos jornalistas (como tenho, assumo-o, dos escritores, por exemplo), não os vejo como aventureiros paladinos da verdade e da justiça, e, muitas vezes, até considero um pouco arrogante, e quantas vezes falsa, a mania que têm de que são os guardiães morais da sociedade. A segunda é que tenho idade suficiente para ser de um tempo em que a comunicação social portuguesa, nomeadamente a imprensa, era uma coisa entusiasmante, os jornais tinham, de modo geral, uma qualidade bastante boa e, mais, eram verdadeiros agentes culturais. Aprendi a ler lendo jornais. É a memória de leitura mais antiga que tenho, deitado no chão, que o jornal era demasiado grande para eu o conseguir segurar, a aprender a ler. Sempre li jornais, e sempre os li com atenção e prazer.
Isto para dizer que Cáceres Monteiro faz parte, no meu imaginário, desse tempo em que os jornais eram uma coisa importante, eram fonte de aprendizagem, de cultura, de saber. Cáceres Monteiro fazia parte desse grupo de grande jornalistas que tinham sentido de responsabilidade, sentido ético, e até sentido do verdadeiro e justo peso da comunicação social na vida do país. Pelo menos essa é a ideia que eu tenho dele. Mais, Cáceres Monteiro era sobretudo repórter, e um repórter extraordinário, sobretudo porque guardava, e crescia como profissional e como homem, tudo aquilo, toda a diversidade, todo o sofrimento, toda a alegria, que os seus olhos viam. Não era um simples espectador, era um homem, que olhava para poder contar o que via a outros homens.
Sempre fui leitor mais ou menos assíduo dos projectos jornalísticos em que esteve envolvido. E mesmo em relação àqueles que não li de forma regular, prestava-lhes atenção, muitas vezes apenas por saber que o nome dele estava envolvido. Muitas das minhas melhores recordações de leitor de jornais passam pelo nome de Cáceres Monteiro: O Jornal, o Se7e, a Visão. Por isso esta notícia inesperada (mas a morte é sempre inesperada) da sua morte faz-nos sentir mais pobres, faz-nos sentir que efectivamente há qualquer coisa que tínhamos, que era importante, e que vamos perdendo. Os jornais são, por natureza, efémeros, e, por consequência, também o serão os jornalistas que neles escrevem. Mas seria bom, seria muito bom, que a memória de Carlos Cáceres Monteiro ficasse para sempre como modelo e exemplo para actuais e futuras gerações de jornalistas, daquilo que um jornalista e um jornal devem ser.