December 31st, 2005

rosas

odete

Encerrar o ano cinematográfico com Odete, um filme enigmático e fascinante de João Pedro Rodrigues, de quem já tínhamos visto a curta ‘Parabéns’ e ‘O Fantasma’, filme de que já tenho falado aqui no innersmile.
A primeira nota tem de ser de estupefacção, perante a rigorosa coragem com que JPR filma. Por causa da natureza crua das imagens, sem dúvida, por mostrar o que os outros escondem mais por vergonha do que pudor, mas sobretudo porque é preciso enorme coragem para filmar assim tão no limite, por filmar com um tão elevado sentido da beleza, da beleza formal, aquilo que sempre preferimos não ver, aquilo que incomoda e perturba.
Neste caso de Odete, muito mais do que as cenas de amor homossexual, o que custa ver é esse lento fazer-se carne da dor. Ou melhor, da enorme cratera latejante que nasce de um vazio. Porque mais do que sobre a perda, Odete fala-nos da ausência, da falta que nos faz aquilo de que, por ser tão radical e absoluto, não conseguimos representar não termos. A dor, mesmo a dor da perda, é qualquer coisa que projectamos, que ensaiamos mil vezes para tentar aprender um caminho que ainda há-de ser percorrido. Mas há essas perdas que por mais que as projectemos, são sempre impossíveis. É disso que Odete nos fala. Da forma como tentamos, tão desamparados, lidar com o impossível. Com a impossível dor amputada de Rui, e a sua falta do outro. Com o vazio impossível que vai devorando Odete, a personagem, e a sua falta de outro.
E é essa pulsão ‘incontível’que transforma esta experiência de assistir ao filme de JPR. Uma comoção que nos atravessa, e que tem a ver com a fragilidade de quem assim expõe o seu vazio ao olhar sempre violador dos outros. Não sendo, na minha opinião, um filme tão transgressor como O Fantasma, porque apesar de tudo aquelas personagens, sobretudo a de Odete, ainda se movem no território da nossa verosimilhança, é essa característica de as personagens serem tanto o reflexo das almas humanas que as torna tão frágeis, tão desamparadas, tão comoventes.

Acresce a tudo isto que JPR filma, como já acontecia em O Fantasma, sem ceder um milímetro da sua noção do lugar da beleza. E no seu caso ela está no corpo masculino e no amplexo que une os corpos de dois homens. Não há como fugir a isto, e negá-lo será retirar muito do valor acrescentado que torna especial o cinema de JPR. Quando a câmara de JPR filma o corpo do actor, que aqui se chama Nuno Gil, estamos a falar da matéria de que são feitas as fantasias, desse lugar perigoso e irrecusável que é o sopro do desejo. E é essa experiência tão profunda e intensa do que constitui a perdição do olhar que serve de cimento de ligação para percebermos o verdadeiro tamanho do vazio: só perante um fulgor tal que ultrapassa a capacidade de o explicar, que radica em qualquer coisa que não conseguimos compreender, só perante um fulgor assim podemos sentir uma dor tão imensa que ultrapassa o tamanho de um corpo e a distância que o separa de um olhar.



Votos de FELIZ 2006 e, já agora, cheio de bons filmes!


edit: link para um texto no blog All Of Me, que, entre muitas outras coisas, chama a atenção para o facto de Odete ser um filme de género, um melodrama, e de cotejar o filme de JPR com as regras desse género. O texto é tão bom que funciona como verdadeiro 'texto de apoio' para o visionamento do filme.