December 28th, 2005

rosas

para o Saint

De puro ardor hei-de morrer ao fim
do meu sonho mais fino e mais fiel;
de puro ardor, de puro amor humano
e divino.

Depois de toda a terra e todo o céu,
morrerei
possuído somente
das águas do destino.


- Alberto de Lacerda

Vou à bolina dos versos para agradecer às águas do destino o terem posto no meu caminho a mais improvável das amizades. Subsistimos, para usar as palavras de outro dos meus poetas predilectos, o Rui Knopfli, no «precário registo das palavras». E é isso que torna, todos os dias, mais miraculosa a vontade de nos permanecermos amigos.
Parabéns, brasileiro meu.
rosas

profundo

Fui ontem assistir à mais recente produção da Escola da Noite, Profundo, um texto do venezuelano José Ignacio Cabruja. É a história de uma família, os Alamos, que acreditam que no subsolo da sua casa estão enterradas as relíquias de um padre santo e, sobretudo, a caixa com o seu tesouro. A peça pretende denunciar a crença absoluta na providência e no acaso, uma noção interesseira e obscurantista da religião, no caso a católica. É, pois, um adequado espectáculo de Natal, tanto mais que inclui, numa peça dentro da peça, uma encenação do próprio advento, feita em louvor do santo, e com resultados mais do que duvidosos.
Quanto à encenação, de Sílvia Brito, pareceu-me que num primeiro momento dificulta um pouco a compreensão da trama, mas, depois de segurar o ritmo da representação, o que acontece sobretudo na segunda parte (muito graças à entrada em cena de Sofia Lobo e da sua Franciscana), é de uma grande eficácia. E encontra, na minha opinião, o tom certo do humor, ao recorrer a diversos tipos como a farsa, a paródia, a ironia, e até o burlesco nas que me pareceram algumas das cenas mais conseguidas do espectáculo.
Destaque ainda para os actores. De entre todos, para a já referida Sofia Lobo, para os riscos que sempre corre o António Jorge, com o seu manganão infantilizado e obstinado (sobretudo com os deveres conjugais, de que abdicou há seis meses em sacrifício oferecido, não tanto ao santo, mas à esperança de encontrar a caixa do tesouro), e sobretudo para o Ricardo Correia que compõe, em travesti, uma Magra perfeita no tom, na pose, na composição. E graças sobretudo a quem, de resto, esta peça de um venezuelano lê-se com uma limpidez cem por cento lusitana.

Impossível não referir, a propósito deste espectáculo, mais uma das polémicas que atravessam Coimbra, e que têm a Escola da Noite, mais como vítima do que como protagonista. Passa-se então que o distinto vereador da cultura da Câmara de Coimbra, comentando as dificuldades orçamentais para o próximo ano, considerou ‘gravosos’ alguns dos protocolos que a Câmara Municipal tem com alguns dos (principais) agentes culturais da cidade. E citou o Teatro Académico de Gil Vicente e a Escola da Noite. Eu li as declarações, e fiquei pasmo com a desfaçatez e sobretudo com o tamanho da asneira: o Gil Vicente e a Escola da Noite são duas das entidades em que, de forma mais regular e consequente, repousa a oferta cultural na cidade. Mas o vereador decidiu acrescentar injúria à ofensa e disse ainda que na cidade existem 35 grupos folclóricos que é importante apoiar! Ao colocar assim em pratos opostos a cultura popular e a alta-cultura, o vereador merecia, por indecente e má figura, ser corrido do cargo. Qualquer pessoa minimamente formada e informada sabe que as duas formas de cultura não vão uma sem a outra, e que ao estrangular uma estamos a matar a outra. E que se ao Estado cabe alguma obrigação no campo da cultura é precisamente a de apoiar as formas mais raras, e por isso menos rentáveis, de cultura.
Claro que a culpa não é do vereador, dele é só a ignorância e a bovina arrogância. A responsabilidade é, naturalmente, da própria Câmara e do seu edil, que denuncia assim o tipo de cultura que defende para uma cidade que já foi apelidada, e se calhar ainda o é pelo próprio presidente da Câmara ou por pessoas do seu círculo, de Lusa-Atenas. Lusa-Atenas, my foot!, como dizem os ingleses bem-educados (os outros diriam ‘my ass’!) O que é que nos ficou dessa outra Atenas, desse sol da humanidade? Os ranchos folclóricos ou o teatro, de que foi fundadora?
Como disse, a Escola da Noite foi uma vítima particularmente injusta deste ataque à cultura que se produz na cidade. Desde logo, porque já tem uma história, e porque a história do teatro na cidade de Coimbra deste tempo que atravessamos se vai escrever com a Escola da Noite, como se vai escrever com o teatro académico e, sendo generosos, com mais um ou dois grupos que, de todo o modo, não têm uma programação tão regular e coerente como a da Escola da Noite. Depois, porque foi em grande parte graças ao trabalho da Escola da Noite que Coimbra ganhou dois espaços de produção teatral, a Oficina Municipal do Teatro e o Teatro da Cerca de S. Bernardo. E, pelos vistos, a Câmara, que aproveitou o trabalho da Escola da Noite para merecer o financiamento desses dois espaços, agora acha que está acorrentada a protocolos gravosos com a companhia. No mínimo, uma tremenda e, essa sim gravosa, injustiça.

Por tudo isto, porque se trata de um espectáculo com qualidade, mas também porque é preciso mostrar que tipo de cultura Coimbra merece, era importante que a Escola da Noite tivesse público, muito público. Sim, porque não é a Escola da Noite que merece ser apoiada; é a cidade de Coimbra que tem de saber merecer ter uma companhia com a qualidade da Escola da Noite.