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bandas sonoras para sonhos
rosas
innersmile
No dia de Natal, à noite, fui com a minha prima ao cinema, depois passei por casa dos meus pais para mais umas rabanadas e uns dedos de conversa. Cheguei a casa já passava da uma da manhã. Quando passei ao lado das caixas do correio, um impulso qualquer levou-me a abrir a minha. Surpresa! Lá dentro estava um embrulho, em forma de cd, com um laço. Quase imediatamente adivinhei que tinha de ser do meu amigo Efe. É das poucas pessoas que sabe onde eu moro, já não era a primeira vez que me deixava ‘mimos’ na caixa do correio, e, sobretudo, acho que é das poucas pessoas que eu conheço para quem faz sentido fazer estas pequenas coisas, pelo menos em relação a mim. Eu tenho uma relação engraçada com Efe, ele trata-me muito bem, dá-me mimos, mas ao mesmo tempo é das pessoas mais implacáveis comigo, nunca me trata com paninhos quentes.
Os cd’s eram ‘backups’ de dois discos que eu tinha ouvido de passagem em casa do Efe, uma noite depois de um dos nossos jantares. Para além da própria música dos discos, a prenda constava ainda de a capa dos cd’s ser a reprodução de dois quadros do Efe, sendo que um deles é um dos meus preferidos; aliás, tenho pena desse quadro ter sido vendido e de, com toda a probabilidade, eu nunca mais poder ter a oportunidade de tornar a olhar para ele, fisicamente à minha frente, pendurado na parede da galeria, ou, melhor ainda, encostado à parede na casa do Efe, como da primeira vez que o vi. É um quadro lindíssimo, uma árvore de desejos, toda pintada exactamente da cor dos desejos, desses mais carnais, mais à flor da pele, mas também dos outros, mais profundos, que apenas pressentimos quando, com um tremor, eles nos afloram à superfície dos olhos ou dos dedos. Não sei se ele quer que eu diga isto aqui, mas de qualquer forma a outra reprodução é de um quadro que já não existe, ou melhor, existe mas fora do comércio afectivo, uma vez que foi roubado.
A música dos cd’s é de René Aubry (Projection Privée e Seuls Au Monde), de quem não sei rigorosamente nada, a não ser o que consegui pescar na net: multi-instrumentista, compositor de música para ballet e para cinema. A música habita aquele território, só para poder dar uma referência a quem não conhece, da Pinguin Café Orchestra; não é bem a mesma coisa, nem sequer é muito parecida, mas, se bem me entendem, o território é o mesmo: uma mistura de música clássica com musica world, sem negar a vez da popular ou do jazz, uma composição de ambientes sonoros, bandas sonoras para filmes inventados, ou para os sonhos privados (acho deliciosa esta ideia, de haver discos com bandas sonoras para os nossos sonhos; em todo o caso, estes discos do RA seriam desses). Como eu costumo dizer, a música de fundo de um café de passagem de uma qualquer estação de serviço inter-galática, uma coisa assim a meio caminho entre o bar do filme Star Wars e o Café Bagdad do filme do mesmo nome.
É, de toda a forma, uma música capaz de nos segurar pela mão e de nos levar, dançando naturalmente, pelo cenário do filme que a nossa imaginação for capaz de criar. E foi, sem desprimor para todas as outras, e sobretudo para quem mas deu, a minha prenda preferida deste Natal. Porque me chegou inesperadamente numa madrugada fria a seguir a um dia já esgotado de promessas.
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