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man about town
rosas
innersmile
Comprei o livro por puro palpite, nunca tinha ouvido falar no seu autor, e tive-o ali uns tempo à espera de vez. Até me tinha passado pela cabeça que se calhar nem o ia ler. Bom, mas comecei e estou a gostar muito, há muito tempo que ler um romance não me dava tanto gozo.
O livro chama-se Man About Town, e o autor é Mark Merlis que além de novelista é especialista em assuntos relacionados com o financiamento de serviços de saúde. A personagem principal, Joel, trabalha para o congresso dos EUA, em Washington, é consultor sobre financiamento de serviços de saúde, tem 45 anos, e, quando o livro começa, acaba de perder o seu companheiro de 15 anos, que o trocou por um rapaz de 23! O romance é, simultaneamente, uma história pessoal de questionamento e busca, e uma espreitadela aos meandros da política norte-americana, sobretudo sobre os processos legislativos e como esses processos são tão susceptíveis ao compromisso e ao manobrismo. É além disso, um romance passional, que relata a arqueologia de uma relação e o modo como alguém saído de um relacionamento muito longo vai restabelecendo ligações afectivas. No caso concreto, esse reatar dos contactos amorosos, depois de uma serie de falsas partidas, consuma-se na relação de Joel com alguém que é a sua antítese: Michael é jovem, é pobre, pratica exercício físico e tem cuidado com a alimentação (muitas passagens do livro são sobre os excessos alimentares de Joel), e é negro (o que leva o romance a abordar a fractura racial que marca a sociedade norte-americana).
Para além dos dois planos, o profissional e o passional, há ainda um outro, muito curioso: Joel passa o romance todo, com a ajuda de um detective que contratou, a tentar descobrir a identidade de um modelo que apareceu num anúncio a fatos de banho, publicado na revista ‘man about town’ em 1964, quando Joel tinha 14 anos; essa foto de publicidade perturbou o jovem adolescente e deixou uma marca decisiva na sua sexualidade, constituindo no livro o leitmotiv das reflexões do personagem sobre a condição homossexual.
Quanto ao estilo, Merlis é quase sempre muito sóbrio no tom, apesar de o livro estar carregado de humor e ironia, quer no que toca ao olhar, por vezes demasiado desencantado, sobre a política, quer no tom auto- derrogatório que o narrador usa na reflexão mais pessoal de Joel. Aliás, é este aspecto de auto-reflexão, esta capacidade por vezes muito impiedosa de auto-análise, a capacidade de se pôr em causa e de tentar, com um rigor quase cirúrgico, perceber-se a si próprio, que torna, pelo menos para mim, a personagem de Joel absolutamente irresistível. Ainda que isto possa soar um pouco adolescente, a verdade é que há muito tempo não me identificava tanto com um personagem de romance, com as suas dúvidas, com o seu particular olhar para si próprio e para a vida ao seu redor, por vezes até com a sua biografia.
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