December 16th, 2005

rosas

(no subject)

Há Lisboa no primeiro dia em que te vi. Era Inverno, de tarde ou já à noitinha, as antenas dos eléctricos, e um autocarro verde de dois andares. Os casacos das pessoas paradas nos passeios, o brilho baço das ruas ou do ar (chovia? não sei), subíamos talvez Almirante Reis, há ainda o aeroporto, nesse dia ou noutro. Mas por enquanto o emaranhado dos fios no céu das ruas de Lisboa, uma rede onde pendurávamos a ternura que nesse dia reservávamos um para o outro, à espera de melhores dias que viriam. Pouco a pouco roubaste-me os amigos, deste uma criança ao mar, e acabaste por me roubar a família. Um irmão. Um irmão que se perde numa rua de Lisboa, agora era já noite de certeza, o Rossio entrevisto da janela embaciada do autocarro, e o sangue é um pêndulo que ora se aproxima, num frémito, ora se afasta, num arrepio. Lembras-te, meu irmão, de um dia que me perdeste e eu chorei? Era já Lisboa, como no primeiro dia que te vi, uma abstracção de tempo, um intervalo, o programa segue dentro de momentos, e nesse passo suspenso estava já tudo, como um ovo. Ah, as ruas de Lisboa, o emaranhado dos fios cobrindo as ruas, ainda hoje nas fotografias não se vê uma perspectiva, uma abertura por onde o olhar possa fugir. Como é que se pode estar prisioneiro de um dia assim?