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barcos de flores
rosas
innersmile
Agradecido e orgulhoso. São as unicas expressões que me vêm à mão a propósito da iniciativa da Amélia Pais de publicar on-line um poema meu (nem me atrevo a chamar-lhe soneto) no seu blog Ao Longe os Barcos de Flores.
Não tenho peneiras nenhumas em relação àquilo que escrevo: acho que o mundo pode passar muito bem sem mais um tipo com a mania de que 'comete' literatura! E juro que não há aqui falsa modéstia nenhuma, é mesmo assim. Mas também confesso que dá um gozo imenso quando alguém presta atenção e gosta de alguma coisa que eu escrevi. Sobretudo quando são assim coisas mais formais, em que o nível de exigência é tão elevado que eu acho que tudo o que escrevo não passam de infantilidades.
E pronto, é mesmo só para dizer que abro o blog da Amélia e me babo todo a ler aquilo, e a achar que até nem soa mal de todo e que, pelo menos para mim, continua a fazer algum sentido.

(no subject)
rosas
innersmile
No Outono de 1980 entrei para a faculdade (sim, I am THAT old!) e esse primeiro semestre de universidade é o único que recordo com prazer e saudade. Primeiro, porque era tudo novidade e o curso parecia-me uma coisa assim muito superior e importante. Mesmo as aulas de Introdução ao Estudo do Direito. Depois porque o início das aulas aproximou-me muito de alguns colegas que eu já conhecia do tempo do liceu, e deu-me a conhecer muitos novos colegas, pessoas de fora de Coimbra, com experiências e vivências muito diferentes das minhas. Ainda porque durante esse primeiro semestre a minha faculdade estava em obras e nós passávamos a vida a correr de edifício em edifício, a ter aulas nos sítios mais díspares e, alguns deles, bastantes surpreendentes. Fiquei a conhecer quase todas as faculdades (assim que me lembre só não tivemos aulas no edifício das Letras), e frequentei todos os bares, sendo o das Matemáticas aquele onde funcionava o 'escritório'. Andávamos sempre em bando, de um lado para o outro, a correr para as aulas ou a fazer tempo nos furos, circunstância que potenciava muito as oportunidades de convívio. Enfim, basicamente, e, como digo, apesar da Introdução e da Economia Política, tenho a recordação desse semestre como um tempo feliz.
Que a felicidade é sempre uma coisa relativa prova-o a ideia que tenho de que, nessa altura, tínhamos maneiras muito sui generis de nos divertirmos. Bebíamos pouco, só fumávamos cigarros (enfim, um ou outro excêntrico fumava cachimbo), achávamos que éramos pessoas muito cultas, líamos muito, íamos muito ao cinema, passávamos horas nas livrarias (sobretudo na Finisterra, que era A livraria) e, sobretudo, discutíamos muito política. E quando digo muito, era mesmo muito. Éramos muito opinativos, tínhamos muitas convicções, que defendíamos à custa de acesos argumentos, e compensávamos o que nos faltava em maturidade e sabedoria com a exacerbação do discurso (enfim, nada de muito diferente do que acontece em relação aos jovens de hoje em dia se substituirmos a política por correntes de música pop ou rock!)

Lembrei-me disto tudo ontem, a propósito da passagem dos 25 anos da morte de Francisco Sá Carneiro, então primeiro-ministro e empenhadíssimo numa dura luta política que, naturalmente, nos contagiava a todos, simpatizantes e, como eu, terríveis antagonistas. Sá Carneiro morreu 3 dias antes de umas eleições presidenciais onde a direita pretendia fazer o pleno, ou seja, já tinha maioria no parlamento, já estava no governo e só faltava a presidência da república. Mais, como eu tinha feito 18 anos em Fevereiro, era a segunda vez que ia votar, tendo sido a primeira nas eleições gerais, uns 2 ou 3 meses antes.
Lembro-me do choque que foi saber a noticia na noite do dia 4, e sobretudo da atarantação que foi não saber muito bem o que pensar ou o que opinar sobre o assunto. Como não havia telemóveis (nem, na maior parte das casas, como era o caso da minha, telefone) nem mails, a única solução era esperar depressa pelo dia seguinte para ir para a faculdade discutir o assunto (é engraçado, mas nesse tempo mal acontecia alguma coisa, seja o que fosse, a reacção era correr para a faculdade para encontrar pessoas e conversar sobre os assuntos).
O desastre foi numa noite de quinta-feira e por isso na sexta-feira bem cedo lá estávamos nós, creio que à porta do departamento de Antropologia, onde deveríamos ter aula. Claro que não houve aulas e passámos a manhã toda por ali, de um lado para o outro, entre bares e salas de convívio, a tentar saber novidades e a analisar o momento, que era verdadeiramente histórico, não só pelas circunstâncias únicas e trágicas em que ocorreu a morte do primeiro-ministro, mas também pela complexidade e dramatismo da situação política.
Eu espero que ninguém se choque com o que eu vou contar, até porque é preciso relativizar as coisas ao período em que ocorreram. Mas a recordação mais nítida e impressiva que eu tenho dessa manhã de sexta-feira a seguir à morte de Sá Carneiro foi uma enorme azáfama que nos fez correr para a cantina das Químicas, que fica ao lado do Auditório da Reitoria. Ali, junto a uma das escadas que dá acesso do pátio do edifício para a zona da cantina, alguém, a coberto da noite e com rápido sentido de oportunidade, tinha escrito na parede um enorme grafitti que lá se manteve durante anos: «Hoje há torresmos»!