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chainho e alvim
rosas
innersmile
O palco está escurecido e entram dois homens, um mais velho, com um aspecto frágil, traz uma viola, o outro traz uma guitarra e tem o ar tímido daquelas pessoas que escondem sempre por fora aquilo que lhes transborda por dentro. Sentam-se e começam a tocar. Os quarenta minutos seguintes são um dos melhores e mais belos e comoventes concertos a que eu já assisti. A viola de Fernando Alvim é de uma subtileza sofisticada, um toque leve e imaginativo, um acompanhamento que nunca se remete a um papel secundário apesar de saber que o lugar principal é da guitarra. E que guitarra. Assim que me lembre, de cabeça, é a terceira vez que vejo o António Chaínho tocar ao vivo, e nunca tinha sido como hoje. Um monumento, uma coisa transcendente, uma beleza pura que é física, tangível, que nos varre o rosto, que conseguimos segurar nas mãos e empurrar contra o peito. É difícil dizer que, nos seis temas tocados, houve momentos mais altos do que outros, mas houve dois ou três, nomeadamente no último tema, Lisboa 23 Horas, em que chorar parece ser a única reacção possível perante uma beleza tão avassaladora, tão sublime. Em cada momento, em cada acorde, em cada frase, há um infinito número de sugestões, emoções, sentimentos. Em cada momento, a guitarra pode ser uma lezíria ao sol e a viola o empedrado húmido de um beco, ou a guitarra ser a noite feérica de uma rua de um bairro e a viola ser uma escarpa derramada sobre um mar sereno. Cabe tudo em cada verso. Sim, verso, é essa a palavra.

Antes, a Tuna Académica da Universidade de Coimbra, que eu nunca tinha assistido. No final, a Tuna regressou ao palco para fazer dois temas com os dois mestres. Uma celebração festiva.

Uma coincidência saborosa. Duas pessoas em palco, Fernando e António. Como Fernando António, aquele que hoje tentámos, tão absurda como inutilmente, fazer caber no embalador vazio da efeméride.