November 30th, 2005

rosas

é como na tropa

Uma das coisas que mais me agradou quando começou o actual reality show da tvi, a 1ª Companhia, foi o eventual efeito perverso de o programa conseguir desritualizar uma instituição que vive sobretudo da força dos seus ritos, da eficácia do seu poder simbólico.
A caricatura tem esse poder de dessacralizar através do humor, da ironia e do sentido do ridículo, e aquilo que se assistia diariamente no programa era a uma caricatura dos rituais militares. Ao aplicar toda a parafernália ritualística da tropa a um bando de celebridades que estavam ali numa mera lógica de show-bizz, o programa punha à vista a falta de sentido desses rituais, o facto de eles viverem por e para si próprios, servirem apenas e exclusivamente para imporem e perpetuarem a lógica de poder da própria instituição.
Isto era particularmente interessante na primeira série do programa: ver o Castelo Branco a fazer sentido no meio da parada, de lenço hérmes e óculos chanel, tinha o efeito de nunca mais levarmos a sério o próprio acto de fazer sentido no meio da parada. Aquela tropa a fingir demonstrava que, afinal de contas, toda a tropa é a fingir. Curiosamente, o Castelo Branco revelou-se muito menos subversivo nesse aspecto, e os actuais participantes Sá Leão e Sérginho, cada um à sua maneira, conseguem tornar muito mais ridículos e falhos de sentido esses rituais.

(Tenho de fazer um parêntesis para dizer que sei que esses rituais têm outras funções para além dessas, que visam, por exemplo, criar o espírito de corpo e o primado da disciplina, ambos essenciais à sobrevivência em guerra do corpo militar, mas essa função de auto-sustentação não é nada despicienda.)

Lembrei-me destas reflexões a propósito de um post que João Lopes pôs hoje no sight+sound, que, entre outras coisas, diz mais ou menos isto de forma muito melhor. Numa primeira leitura do post não me chocou a possibilidade que JL refere da perda de poder simbólico da instituição militar, precisamente porque, como referi, essa para mim era a sua única promessa aliciante.
Mas depois percebi que o perigo não está nessa eventual perda de valor simbólico da instituição militar, mas no facto de, essencialmente, o efeito do programa se traduzir numa total perda de respeito por essa instituição.
Não estaríamos mal se, perdido o valor simbólico da tropa, fossemos capazes de colocar uma outra coisa no seu lugar, se a partir dessa destruição fôssemos capazes de construir uma outra coisa qualquer. O que se passa, infelizmente, é que não é isso que acontece. O efeito devorador do entretenimento televisivo é o da banalização: deixamos estar a tropa como está, mas perdemos todo o respeito que tínhamos pela instituição militar. Que, quer se goste ou não (e não gosto), é um factor de coesão social, é, digamos assim, um valor colectivo. E o perigo reside nisto mesmo: aos poucos vamos perdendo o respeito por tudo o que nos une, por tudo o que tenha um valor que ultrapassa o mero interesse individual e a vantagem particular. Passo a passo, vamos deixando de ser uma comunidade. Uma sociedade.