November 29th, 2005

rosas

(no subject)

Tenho escrito pouco no innersmile porque, fundamentalmente, não tenho tido tempo e disposição. Não é que ande terrivelmente ocupado, não exageremos, mas falta-me aquele tempo pausado, que nos permite segurar um fio de raciocínio e segui-lo através das palavras a ver onde nos leva. Falta-me a disposição que nos permite espantar com as pequenas fulgurâncias do quotidiano. Falta-me a perplexidade, a indignação, o fascínio, o incómodo. Quando conduzo, quando ouço música no rádio do carro (quando ouço o Brian Eno), lembro-me de coisas engraçadas para trazer para o innersmile, mas depois estaciono-as no parque de estacionamento das coisas que adiamos por falta de importância.

Já escrevi mais do que uma vez aqui no innersmile sobre O Fantasma, o filme de João Pedro Rodrigues, que é um dos meus filmes preferidos, tanto pelas razões mais óbvias como pelas mais cinéfilas... Agora, só uma nota para dizer que finalmente está à venda o dvd. Para além do filme, os extras incluem cenas cortadas, o casting do actor principal do filme, o Ricardo Meneses (e é curiosíssima esta coisa rara de num casting já se inscrever a ideia do filme, o ‘fantasma’ do que o filme há-de vir a ser), e a curta-metragem do JPR, Parabéns, que e já conhecia e de que também gosto bastante. Aliás, fiquei fã do realizador logo à primeira visão desta curta, creio que como suplemento de um filme há já bastante tempo.

No fim de semana passado vi, também em dvd, No Direction Home, o filme documentário que o Martin Scorsese fez com o Bob Dylan. Fiquei logo surpreendido com o facto de, sendo um filme extenso (para aí três horas e meia) só abranger a vida de BD até 1966, quando ele decidiu ‘electrificar-se’. Isto dá bem a medida da profundidade que o filme atinge, da forma espraiada, mas intensa, com que vão sendo focados os vários aspectos da vida de Dylan desde a infância até ao momento em que ele decide atravessar o patamar do estrelato rock’n’roll. É que o filme é interessante por duas razões, ambas de peso: a própria figura de BD, a tentativa de compreender aquilo que dá fôlego e fogo a uma vida, mas também a própria matéria fílmica, ou não se tratasse de uma obra de um do maiores cineastas da actualidade. Quem já viu outros trabalhos documentais de Scorsese (estou a lembrar-me de Viagem a Itália ou da História do Blues) sabe do que falo, da forma atenta e simples como se vai lançando luz sobre o objecto do filme, onde a capacidade de análise vai sempre acompanhada do prazer da fruição, onde se respeita o tempo que é necessário para se conhecer alguém ou alguma obra, tempo para lhe apreender a respiração, o olhar, sobretudo a maneira de estar no mundo, da qual a obra é sempre uma consequência e um corolário.