November 28th, 2005

rosas

(no subject)

Estou a ler dois livros ao mesmo tempo. Não rigorosamente a-o-m-e-s-m-o-t-e-m-p-o, um em cada mão, mas quase. Passo o serão deitado no sofá a ler o livro da Maria Filomena Mónica, Bilhete de Identidade. Depois transfiro-me para a cama, onde prossigo a leitura com All The Way Down, do Nick Hornby. Tenho tido sorte, até agora anda não confundi o pessoal das Avenidas Novas da Lisboa dos anos 50 e 60 com os castiços do norte de Londres.
O livro do Hornby que me foi oferecido pela minha madrinha (ah pois, não havia de ser eu o único a ficar sem madrinha!), versão original em inglês, é uma delicia de ironia e ternura. O livro começa da forma mais desarmante quando as quatro personagens se encontram por acaso, na noite de passagem de ano, no alto de um edifício no norte de Londres para cometerem suicídio. A partir daí é, como diz o título, all the way down.
As duas coisas que mais me têm agradado no livro são, por um lado, o humor irónico e muito divertido do Nock Hornby (de quem eu nunca tinha lido nenhum livro), e, por outro lado, o olhar cheio de ternura que sempre deita às personagens, mesmo quando as está a cobrir de ridículo. Tenho de confessar que em relação a uma das personagens me comovo tanto, fico tão engasgado com o seu drama, que é de longe a minha personagem preferida, mas cujas peripécias, mesmo as mais ridículas, me deixam sempre comovido.

Em relação ao livro da Filomena Mónica, só uma nota para dizer que um dos prazeres deste livro é a forma como a autora usa as palavras. Refiro-me à utilização de certas palavras que caíram em desuso e que no livro têm essa função, que cumprem com eficácia, de nos localizar no ambiente mental que se pretende caracterizar. Assim de cabeça, que não tenho o livro aqui ao pé de mim, lembro-me de duas: destinar e romance. Destinar era aquilo que as donas de casa decidiam relativamente às ementas diárias, e pressupunha que não eram elas que cozinhavam, que havia cozinheiras a quem elas ‘destinavam’ o que iria ser o almoço. Quanto a romance, é uma expressão que povoa o meu imaginário infantil e juvenil: Fulano tem um romance com Sicrana, e era uma mistura enriquecida daquilo que nós hoje chamamos relação com o estrangeirismo ‘affaire’. Não era bem ter um caso, que pressupõe a infidelidade, o romance podia ser perfeitamente entre pessoas descomprometidas, mas tinha uma aura velada de mistério e proibição.