?

Log in

No account? Create an account

(no subject)
rosas
innersmile
para a Chuinga, ontem


MÚSICA DE FIM DE DIA

Volto aos velhos livros de antigamente
no quarto comprido e vazio.
Com um silêncio sem estrelas
toco-lhes amargurado.
Para lá da poeira e da alteração
aparente
nem tudo está mudado.
A cadeira em que te sentavas
ali está, Rui Guerra. E tu onde estarás?
Não faço ideia. Tanto me ressoam
teus passos à cadência do boulevard
como ao pisar duro do planalto de Castela.
Não importam, este abandono e esta secura.
O sentido da vida anda por detrás
do eco das nossas palavras. Tu com ele.
(outros tomam estupefacientes e emborracham-se
de cabotinismos.) Aqui um papel
amachucado com a tua letra:

Estudos para um ensaio de composição plástica dinâmica.
Além, outro do Lagarto-pintado (Onde andará ele?
Olhando o manso Tejo dos poetas?
Amando as prostitutas da rua do Mundo?)
É um poema para Eluard morto:

Deixem-lhe nos lábios
uma asa nervosa de cigarra…
Embora de vós nada saiba
e os livros, os papéis e as conversas,
sejam antigos como a adolescência,
não esqueço a história dos dedos
da mão. Nem vós.
Assim arrasto a minha inutilidade
e lembranças como feridas.
São o que de melhor tenho
com o sonho esboroado daquilo que não fui.
Morcegos desprendem-se dos telhados
com a chegada da noite.
Comovido,
no quarto comprido e vazio,
volto aos velhos livros de antigamente.


- Rui Knopfli

elizabethtown
rosas
innersmile
Hesitei muito antes de ir ver Elizabethtown, o mais recente filme do Cameron Crowe, e só fui ao cinema desafiado pela companhia. A questão é que me tinha irritado muito com o Vanilla Sky, tanto que nunca mais consegui rever o Almost Famous, que era um dos meus filmes favoritos.
Ok, esta história de um designer de sapatos desportivos com um ex-futuro promissor (o sempre pouco entusiamante Orlando Bloom) que adia o suicídio para ir buscar (a Elizabethtown, precisamente) o corpo do pai recém-falecido, reconcilia-me com o cinema do CC. Sobretudo pelas razões por que eu mais tinha gostado nos filmes anteriores do realizador(o referido Almost Famous e o Jerry Maguire): uma escrita irrepreensível, e irrepreensivelmente fluida, um universo de referências culturais próximas do meu (deve ser uma questão geracional), uma perspectiva positiva em relação à vida que se confunde com o prazer do cinema, e, last but not least, as bandas sonoras verdadeiramente luxuriantes.

É curioso, quando estava a escrever o parágrafo anterior apercebi-me que há um ponto de contacto entre o filme e o livro que estou a ler (A Long Way Down, do Nick Hornby - tenho pronta uma entrada sobre o livro, ponho-a amanhã): em ambos há suicídios planeados que são postos 'on hold' à espera de melhor oportunidade (ok, no livro são 4-quatro-4 suicídios, mas isso é só uma questão de número). Em ambos, esse compasso de espera vai trazer já não digo boas razões para viver, mas pelo menos uma razão (uma pelo menos) para não morrer. Em Elizabethtown, o herói encontra o amor, através da improvável personagem desempenhada pela Kristen Dunst; mas mais interessante, é que no filme também havia dois suicídios (o livro do Hornby ainda está a ganhar): a do herói propriamente dito, e a do sonho, americano, claro, mas de pendor universal. E o melhor do filme, para mim, é a viagem que Drew faz no final, através da América, à procura da redenção e ao encontro do amor, e que, tratando-se de uma profunda declaração de amor em relação a um país e à sua cultura, salva o American Dream do seu suicídio triste e amargo às mãos do bushismo e do actual recuo moral e religioso.

edit:
A _soft_, em comentário, chama a atenção para um das cenas mais bonitas de Elizabethtown. Ao longo do filme, vamos acompanhando as maneiras que Hollie, mãe de Drew e, portanto, a viúva do falecido, inventa para ir lidando com a dor da morte do seu marido. Quase no final da filme, na cerimónia que é levada a efeito na pequena cidade do Kentucky para homenagear o morto, Hollie sobe ao palco e, através de todas essas coisas um pouco estranhas que a vemos ir fazendo ao longo do filme, presta a sua homenagem através de um número da mais brilhante comédia stand up e de um outro de sapateado. É uma sequência extremamente enternecedora, daquelas de nó na garganta, entre outras coisas porque Hollie se revela afinal a mulher apaixonada que ao longo do filme nos foi escondida. E porque a cena é feita sem o mínimo de lamechice, apesar de ser muito comovente. Claro que ajuda muito Hollie ser representada pela Susan Sarandon, que, nesta pequena sequência, demonstra porque é que é uma actriz extraordinária.
Tags: