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chamar-te pátria minha
rosas
innersmile
Não sou especialista mas parece-me que a cena jazz portuguesa vive um momento de grande dinamismo. Sempre houve bastantes festivais mas agora há muitos projectos, muitos músicos, muitos discos gravados. Há nomes sólidos, incontestados, estrelas que brilham no mais rigoroso firmamento, e, quase todas as semanas, novas gravações entusiasmantes.
No fim de semana passado comprei dois discos novos. Debut é, como o nome indica, a estreia do Filipe Melo Trio, composto pelo pianista, por Bruno Santos na guitarra e por Bernardo Moreira no contrabaixo. Eu já tinha visto o Filipe Melo ao vivo, creio que duas vezes, e o cd surpreendeu-me um pouco: a ideia que eu tinha das actuações ao vivo é que FMT centrava muito as suas actuações em standards, respeitando muito a estrutura clássica das canções. O disco só tem uma composição original (da autoria de FM, e que dá nome ao disco), mas que é deliciosa, um verdadeiro clássico do jazz nacional. O resto são versões, mas não exactamente standards no entendimento mais comum do termo, algumas eu já conhecia dos concertos ao vivo. De modo geral, acho que o disco está muito bem tocado, os músicos estão muito rodados a tocar juntos e isso nota-se. É, sobretudo acho eu, um disco com muito boa onda, em que o tom cool dominante não deixa de ceder lugar a momentos mais arrebatados e incendiados.

O outro disco que comprei foi uma surpresa maior. Eu acho que já o tinha visto à venda mas não tinha ligado mas desta vez olhei com atenção para a lista de canções de Lisboa Que Amanhece, de Paula Oliveira e (novamente) Bernardo Moreira: um conjunto de destacados clássicos da canção popular nacional (à falta de uma denominação mais exacta para aquele tipo de canções que vai daquilo que antigamente se chamava música ligeira até à chamada canção de intervenção). Entre os temas, dois de Sérgio Godinho (o do título e Primeiro Dia), Cavalo à Solta, Homem na Cidade, O Meu Poema, E Depois do Adeus. Uma selecção de luxo como se vê. Os arranjos de BM são naturalmente jazzisticos, o tom é sempre muito suave e simples. Mas o mais surpreendente é indubitavelmente o canto da Paula Oliveira. Sem ser dona de um timbre muito distinto, demonstra no entanto um total domínio da frase musical, uma dicção irrepreensível (dá arrepios de prazer ouvi-la pronunciar as palavras). Eu não sei como é que isto se diz em linguagem técnica, mas a maneira de cantar da PO segue a melodia, acentua-a, torna-a mais lenta e com isso conseguimos como que ouvir cada nota distintamente. Ou a forma clara e pronunciada como a PO diz as palavras é a mesma como canta as melodias. Raras vezes tenho ouvido uma forma assim tão controlada de cantar, um domínio tão seguro da voz. Às vezes até parece que apetece que ela desafine um bocadinho só para termos assim uma espécie de reality check, para vermos como são as coisas na vida real, fora daquela perfeição toda.

Já agora, ainda no fim de semana ia eu de carro auto-estrada fora a fazer o zapping das estações de rádio, sobretudo das rádios locais que sempre são pródigas em nos surpreender das formas melhores, piores, mas principalmente mais divertidas. Às tantas ouvi uma coisa absolutamente espantosa e que, assim de repente, num primeiro momento, me pareceu a Billie Holiday a cantar a Dance Me to The End of Love, do Leonard Cohen. O que, é óbvio, faria parte da ordem dos milagres impossíveis. Era uma versão notável, não só pela voz, mas também pelo arranjo, muito simples e caloroso. Descobri rapidamente que se tratava da Madeleine Peyroux, e do seu cd Careless Love, que já cá canta. Ainda não ouvi o cd todo com atenção (vi que tinha ainda uma versão do Bob Dylan), mas garanto que esta versão é imperdível.
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