November 16th, 2005

rosas

(no subject)

Comprei ontem o livro de memórias da Maria Filomena Mónica, Bilhete de Identidade. Ainda só li a introdução e o primeiro capítulo, e, claro, estive a analisar muito atentamente as fotos que vêm em extra-texto. A primeira conclusão, para já, é que as betas têm exactamente o mesmo aspecto hoje em dia que tinham há quarenta e tal anos. Notável.

Eu simpatizo com a MFM desde que lhe comecei a ler as crónicas nos jornais. Acho que a principal razão porque passei a gostar dela foi porque numa das crónicas ela contava esta coisa espantosa de que gosta muito de viajar, que adora hotéis e a luz dos hotéis, porque é muito boa para ler, e por isso quando chega a uma cidade estrangeira compra os guias turísticos e fica no hotel a lê-los. Claro que isto soa a blague, mas que é delicioso, é.
Não gostei nada dela quando publicou no Mil Folhas uma pretensa recensão de um livro de poemas do Boaventura dos Santos só para lhe arrear forte e feio, achei feio e deselegante, mas eles os dois têm uma violentíssima polémica há anos (ou é só ela que tem, não sei).
Do pouco que li, gostei do tom seco e impiedoso do livro. Gostei de uma certa candura, mas que me parece artificial, ou seja ela usa propositadamente essa candura para poder dizer coisas desagradáveis e conseguir safar-se. Além de que gosto desta ideia das memórias, gosto do registo autobiográfico. Não é uma questão de exposição pública, mas sobretudo de dar testemunho: de uma vida e do que era ou foi a vida durante uma determinada época. Infelizmente é pouco comum, em Portugal, as personalidades públicas publicarem as suas memórias. Suponho que em parte por pudor, nós os portugueses somos, ou éramos, ciosos da vida privada, da esfera intima. Mas creio que outra razão de peso para não gostarmos de publicar memórias tem a ver com o facto de não gostarmos de nos submeter ao julgamento dos outros. É que mesmo que o autor das memórias se esforce para dar uma versão favorável de si próprio, vai sempre escrito mais do que aquilo que queríamos escrever. Talvez, pelo pouco que li, seja esse o principal mérito deste livro da MFM: ter consciência, e assumir o facto, de que aquilo que escreveu não apenas vai ser lido de maneiras diferentes por toda a gente que vai ler o livro, mas que as pessoas, as que a conhecem, as que inclusivamente aparecem referidas no texto, mas também todos os leitores, vão poder ler mais do que o que ficou escrito. E essa consciência dá ao livro uma enorme dose de liberdade que se sente, para dizer a verdade, desde as primeiras linhas.