November 14th, 2005

rosas

(no subject)

Gostei muito da entrevista com o José Saramago que vem na edição de Sábado passado do Mil Folhas. Não sei, mas parece que agora está um bocado na moda malhar no Saramago. Eu próprio já não leio um romance dele desde o Todos os Nomes. Mas esta entrevista deu-me vontade de ler As Intermitências da Morte, o seu mais recente livro.
A entrevista é uma delícia. Não porque traga alguma revelação, uma novidade, uma surpresa. Mas basicamente porque o Saramago tem uma candura e ao mesmo tempo uma sagesse que, combinadas, são desarmantes. Talvez tenha a ver com a velhice, não sei. Mas adorei a forma como ele enuncia as coisas. Adorei lê-lo a falar do tempo, da importância do tempo. Acho que só um tipo velho é que consegue ter essa noção da relatividade do tempo. Não que o tempo seja relativo, como diria o Albert, mas antes que tempo torna tudo relativo. Que o tempo vai, l-e-n-t-a-m-e-n-t-e, construindo, ou destruindo, as coisas.
Além disso, continuo a rever-me muito no materialismo do Saramago. Que passa pela premissa de não acreditar em deus pela razão simples de não o conseguir perceber, de não conseguir entender a ideia de deus. E pela recusa de que isso é necessariamente uma coisa má, um handicap.

No filme All That Jazz, do Bob Fosse, havia umas cenas com um comediante de cujo nome não me recordo, e que desenvolvia, com aquele sarcasmo próprio de uma certa comédia stand-up norte-americana, a teoria dos cinco estádios de aceitação de uma doença terminal: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Porque é que me lembrei disto a propósito da entrevista do Saramago? Sei lá, porque se calhar me chocou uma certa frieza, ou pelo menos uma serenidade um pouco glaciar, com que Saramago se refere à inevitabilidade do fim, de todos os fins: do homem, da espécie, do planeta, do sistema solar, até do universo. Mas não me parece que Saramago tenha chegado finalmente ao quinto estágio dessa teoria que enunciei. Parece-me antes que ele, da forma inteligente, subtil e com humorada ironia que o caracteriza, está, como qualquer criança que pela primeira vez se confronta com a morte de alguém de quem gosta muito, a tentar perceber que coisa é essa do fim.