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last days
rosas
innersmile
Em Last Days Gus Van Sant retoma um tema que já havia trabalhado em Elephant e, tanto quanto sei uma vez que não vi o filme, em Gerry: não tanto a morte, mas a sua imanência, mais até do que a sua iminência. Como se fosse possível, seguindo os passos de uma personagem, descobrir-lhe não sei se diria um desejo de morte, menos ainda uma apetência ou uma disponibilidade, mas como se a morte fosse uma qualidade intrínseca da personagem e que de tanto olharmos conseguimos descortinar, alguma coisa que está inscrito e que vem à flor da pele.
Infelizmente, onde eu penso que Elephant era um filme extraordinário, parece-me que Last Days falha: na capacidade de construir uma narrativa cinematográfica, uma linguagem especificamente de cinema, feita de plano, de sequência, de montagem, de iluminação, de som, de representação, que mostre essa imanência. O que era assombroso em Elephant era o modo como Van Sant anunciava uma catástrofe que parecia inscrever-se na própria condição adolescente dos seus personagens, e como o fazia sempre de uma forma inominável, sem precisar de explicitar o que quer que fosse, tudo decorria da matéria do próprio filme, sem qualquer informação adicional.
O que me parece é que neste Last Days há como que uma intransponibilidade, como se o filme parasse à porta do personagem e não o conseguisse ler. Percebo que essa instransponibilidade seja propositada, que é um efeito pretendido pelo filme, como forma de definir, de traçar o destino auto-destrutivo do personagem. Mas enquanto Elephant conseguia inscrever a imanência da morte na condição adolescente dos protagonistas, Last Days nunca o consegue fazer, na minha opinião, claro, em relação à condição de Blake de estrela do rock’n’roll, nem sequer, o que até seria mais óbvio, em relação à sua dependência das drogas. De algum modo, nesse aspecto, a mensagem de Last Days torna-se menos complexa e subtil, mais simplista: Blake está a morrer porque não consegue libertar-se da dependência das drogas e está a ser destruído por ela.
Enquanto os adolescentes de Elephant eram estrelas à espera do momento da sua explosão, e parte da eficácia do filme residia mesmo no facto de nós, os espectadores, sabermos que essa explosão já estava despoletada, era só uma questão de tempo, o Blake de Last Days parece uma estrela que já explodiu, a luz que nos chega de uma estrela que já morreu a milhares de anos-luz. Em mais do que um sentido, em Last Days Van Sant parece limitar-se a filmar a desnorteada deambulação de um fantasma, de um ectoplasma.
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