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micro-conto
rosas
innersmile
Libório tinha um único objectivo na vida, que perseguia de forma obstinada, e que acreditava estar cada dia mais próximo de alcançar. Até ao dia em que se finou, com a proveta idade de noventa e quatro anos.

another brick in the wall
rosas
innersmile
Há uma canção velhinha dos REM que diz "it´s the end of the world as we know it" (e acrescenta "and I feel fine"), de que me lembro sempre a propósito da queda do muro e da unificação da Alemanha, de que hoje se comemora mais um aniversário, e de que me lembrei a propósito de um texto do chuinga. Foi um dos dias marcantes da minha vida, daqueles em que temos a certeza de que estamos a viver um momento absoluto, radical, de que alguma coisa mudou, de que daqui para a frente já não vai ser como dantes (quartel-general em Abrantes).
Tenho em minha casa um pedaço do muro. Que me lembra, nomeadamente, que nunca na vida irei conhecer aquela que sempre tinha sido a cidade que eu mais desejava conhecer, a Berlim dividida pelo betão, a cortina de ferro que rasgava a Europa, e o Mundo.
Nós, os filhos da guerra fria, aprendemos a olhar para um mundo dividido ao meio, essa era a verdade imutável, que condicionava o nosso modo de o perceber, e até a nossa maneira de pensar. De repente, deixou de ser assim. Lembro-me de estar a ver televisão, e de isso me parecer um sonho, qualquer coisa fora da realidade. Pela primeira vez, tentávamos olhar para o mundo como um todo. E percebê-lo.
Claro, que essa hora era da ingenuidade, da crença total e sem reservas no futuro. Podíamos já imaginar que, em pouco tempo, o mundo ao invés de ser uno, se ia estilhaçar em milhares de pedaços. Aprendemos, com o tempo, que essa não era a única fronteira. Havia outras, tal como haveria outras divisões, outros muros. Estava já inscrito na inexorável marcha do tempo e da história que, mal tinha pousado a poeira do betão do muro, à força da marreta e do safanão, outra poeira, feita de asfixiante cinza, se ergueria no ar, radicalmente mudando, de novo, o perfil de uma outra cidade. E, novamente, do mundo.