November 8th, 2005

rosas

(no subject)

Nem percebi bem qual o tema do Prós e Contras de ontem, metia deus e as cidades e a crise da espiritualidade. Confesso que a presença da Maria José Nogueira Pinto me desmotiva logo ab initio. Entretanto, começou a entrevista no Por Outro Lado ao Marco Martins e ao Nuno Lopes, realizador e actor do Alice, e eu estive a vê-la.
Quando terminou a entrevista e eu voltei ao canal 1 da rtp, assisti provavelmente a um dos melhores momentos televisivos de sempre. Aliás a própria apresentadora do programa teve consciência disso, e fartou-se de repetir que estávamos a assistir a um diálogo histórico. E não era exagero nenhum.
O Cardeal Patriarca de Lisboa Dom José Policarpo e o professor e filósofo José Barata Moura (sim, o do famoso Fungága da Bicharada) conversavam… confesso que nem sou capaz de explicar sobre o quê! Mas quando dei por mim estava a assistir à mais luminosa e cristalina definição do que é o homem, do que é a sua verdadeira dimensão, do que é a essência do humano, daquilo que eleva o homem acima da sua própria condição. E o que é espantoso é que Dom José Policarpo e Barata Moura pareciam eles próprios maravilhados com o facto de estarem a dizer exactamente a mesma coisa, que o Homem que cada um deles desenhava ser precisamente o mesmo que o outro desenhava, salvo nessa dimensão, que para um é fundamental ao ponto da essência e para o outro não passa de uma hipostasia, e que é a presença de deus.
É fantástico ouvir duas pessoas de extrema inteligência a falar sobre assuntos tão importantes de uma forma tão simples e clara. Durante aqueles momentos, parecia que cada um deles se excedia, não como se fosse um concurso, mas como se o próprio diálogo que travavam os fizesse subir sempre a um patamar mais elevado. Claro que a Nogueira Pinto se meteu na conversa e o nível desceu logo para a banalidade e o lugar-comum. Foi engraçado ver Barata Moura irritado com ela e Dom José Policarpo a tentar salvar a senhora, pegando no que ela tinha dito, dando-lhe totalmente a volta, e recuperando a elevação da conversa, falando sobre a cultura (a ‘Cultura’) como esse território daquilo que é exclusiva e marcadamente humano.
Fiquei, daqueles breves minutos, com uma admiração incondicional pelos dois homens. Mas talvez pelo inesperado, talvez pela lição de humildade extrema que deu, talvez porque tudo o que disse me abriu e acrescentou e enriqueceu, talvez até pela sedutora inteligência, clareza e simplicidade do seu discurso, fiquei completamente rendido e fascinado por Dom José Policarpo. Que sorte, enfim: que graça termos em Portugal um chefe da igreja católica como ele.