October 31st, 2005

rosas

chuinga

Um ano a mascar. O 'chuinga' comemora hoje seu 1º aniversário. Aqui o innersmile não costuma assinalar efemérides, mas o 'chuinga' é um caso especial.
Uma das coisas que ter um diário on-line me deu foi amigos. Alguns tão amigos que se tornaram família. Acho sempre graça quando a rapaziada do meu tempo invectiva contra as amizades virtuais, porque me lembro que alguns dos meus melhores amigos, daqueles que me conhecem mais por inteiro, conheci-os através da net. É verdade que foi o conhecimento físico e o convívio que aprofundou a amizade e estreitou e apertou os laços. Mas foi na net que tudo começou, foi na net que, digamos assim, nos seduzimos e nos fascinámos uns com os outros. Até acho que já escrevi isso por aqui, mas repito: juro que quando comecei o innersmile não tinha essa expectativa, mas foi sem dúvida o mais importante que a net (estou aqui a lutar para não usar a deselegante expressão blogosfera) me deu.
Outra coisa absolutamente espantosa que a net me deu foi a estranha emoção de encontrar aquilo que vulgarmente designamos por 'alma gémea', ou como os ingleses dizem 'kindred spirits': pessoas que a net venceu a elevada improbabilidade de nos cruzarmos e que nos provocam a estranhíssima sensação de, subitamente, nos depararmos com um outro com quem sentimos uma afinidade, uma partilha. Não uma afinidade de interesses, de universos, de referências, mas, à falta de expressão mais exacta, uma afinidade de olhar, da maneira de olhar o mundo e o ver. Não se trata de duplos, de outras versões de nós próprios, mas é mais como se tivéssemos a possibilidade de encontrar uma versão melhorada de nós próprios. Não melhor no sentido de não ter os nossos defeitos, as nossas falhas, não é bem disso e aqui não estou a fazer panegíricos. É mais como se essas pessoas conseguissem cristalizar, dar corpo e forma física, a alguma coisa que estava dentro de nós à espera que a conseguíssemos nomear.
Quem segue com atenção o innersmile, sabe que uma dessas pessoas é o Saint-Clair. Ele uma vez comentou qualquer coisa no innersmile, eu fui atrás do link para o 'journal' dele e, na leitura da primeira frase, assim, quase à primeira palavra, senti-me assombrado, como se estivesse a olhar para um espelho da minha alma, como se a minha sombra de repente ganhasse autonomia e começasse a mexer-se por si.
Outra pessoa com quem isso aconteceu foi com a Isabella, que é a autora do 'chuinga'. A primeira vez que me 'cruzei' com a Isabella foi na leitura de um livro que ela escreveu, o DB/81. Eu li o livro e pensei: caraças, eu podia ser esta gaja, eu andei por este sítio e vi o que ela viu, como ela viu. Aquela sensação prosaica de 'alguém que me compreende'. Depois li o M&U, e essa identificação ainda aumentou. Entre outras coisas, porque eu li nesse livro uma coisa que não foi muito frequente: o relato de um retornado (chamemos-lhe assim para simplificar) que aderiu à independência de uma ex-colónia, que se veio embora porque as coisas correram mal, e que, apesar disso, não veio zangado com África. O livro descrevia muito bem o que foi viver a independência de Moçambique, os sentimentos e as emoções únicas e irrepetíveis, e, julgava eu até então, incontáveis! Essa emoção transbordante de se estar a viver o futuro absoluto, de tudo o que é o mundo ser uma imensa promessa. E como disse, notável não haver amargura ou ressentimento quando o sonho termina e nos apresentam a factura à saída, assim tipo "foi um sonho tão bom que eu estou disposto a pagar o preço de o ter tido".
Um dia recebi um mail a propósito do À Sombra dos Palmares e fiquei muito ansioso se a pessoa que o assinava era a mesma que tinha escrito esses dois livros. Era. E apresentou-me o 'chuinga', que eu acho que, desde então, não passou um dia (tirando férias ou outras situações sem acesso à net) sem que o tivesse lido. Uns dias leio com atenção, outros comento, e outros masco só um bocadinho, enquanto o doce sabe na boca, e sigo. Que ela escreve muito bem, it goes without saying. Que eu nem sempre concordo com as opiniões dela e nem sempre valorizo coisas que ela valoriza, é verdade e ainda bem. Que tropeço sempre na sua ternura, já dizia o O’Neill. Que me comovo, que me rio, que sonho com as viagens que nunca fiz, que lhe invejo outras que ela faz melhor do que eu. Mas o que é mágico e me faz ir todos os dias ao link, são esses momentos quase incríveis em que eu leio uma entrada no 'chuinga' e me passa pela cabeça: caraças, eu podia ser esta gaja!
rosas

fado barroco

Mais um concerto ontem à noite do estival de Música de Coimbra: As Sementes do Fado, com o Ensemble Barroco do Chiado, com convidados: Ricardo Rocha na guitarra portuguesa e Sónia Alcobaça, soprano. Uma ideia aliciante: apresentar um programa de música barroca, esticando-o até final do século XVIII, princípio de XIX, pondo em evidência que por aí também passaram as origens do fado. Na primeira parte nomes sonoros do barroco: Vivaldi, Tartini, Scarlatti e Carlos Seixas. Na segunda, temas de autores portugueses, onde essa ligação ao fado era mais evidenciada.
Para além d interesse do programa, o que mais gostei foi mesmo de ouvir o Ricardo Rocha tocar. Ele deve ser, digo eu, o melhor executante de guitarra actualmente, e eu praticamente não conhecia nada. Claro que este programa era, neste aspecto, limitativo, mas de qualquer forma já deu para o ouvir tocar e perceber, sobretudo nas modinhas da segunda parte, porque é que o legado de Paredes e outros gigantes da guitarra está tão bem entregue.