October 28th, 2005

rosas

(no subject)

Já devo ter contado por aqui a história de como, para aí na Primavera de 2001, descobri o mundo dos blogs. Sempre gostei muito de diários, de os ler e de os escrever, e foi uma verdadeira revelação quando um belo dia descobri na net um diário de uma rapariga da região de Lisboa. Fascinou-me aquela coisa de alguém pôr on-line, ao alcance dos olhos de qualquer estranho como eu, pormenores da sua vida. Lembro-me de ter lido no diário dela uma frase qualquer do género ‘hoje não me aconteceu nada de especial’ e de ter achado isso o máximo, de ter escrito um texto (off –line, hélàs) sobre essa coisa fabulosa e meio Warholiana de expor uma vida onde não acontece absolutamente nada de especial. Fiquei obcecado, não com a rapariga mas com o seu diário, com essa coisa extraordinária de pôr diários na net. Passaram poucos meses a navegar na net até descobrir o livejournal, a primeira ferramenta que eu descobri (através de uma pesquisa no google sobre os X-Ray Spex!) que me permitia criar o meu próprio diário on-line. O resto, como eles dizem, it’s history.
Mas voltando ao que interessa, durante muito tempo, muitos meses, anos, segui quase diariamente o diário on-line dessa rapariga. Descobri que o marido também tinha um, de que me tornei igualmente leitor fiel. Descobri os diários on-line de outras pessoas da família. E fui descobrindo sempre mais diários, escritos em português, até que rebentou a moda dos blogs em Portugal, o número de amigos no livejournal passou a ser elevado, e, aos poucos, fui naturalmente seleccionando a leitura de alguns diários em detrimento de outros. Primeiro, deixei de ler diariamente o diário da rapariga, depois deixei de o ler regularmente. O mesmo com o diário o marido. De vez em quando, vou lá espreitar, tento perceber se se está a passar alguma coisa de importante nas suas vida: li que mudaram de casa, que compraram um carro em segunda mão que lhes deu problemas. Nunca tivemos qualquer tipo de contacto. Logo no princípio mandei-lhe um mail, ao qual nunca respondeu; comentei algumas vezes no diário do marido, mas também sem grande desenvolvimento. Ou seja, nunca falámos, nunca trocámos ideias, não os conheço para além da leitura dos seus diários on-line.
Há alguns meses, apercebi-me que a rapariga estava grávida. Com a mesma irregularidade, fui espreitando o diário. Estive quase 2 meses sem lá ir espreitar. Ontem à noite, lembrei-me e fui ler o dele. Percebi que se tinha passado qualquer coisa de muito grave nas suas vidas. Fui ler o diário dela e confirmaram-se a piores notícias possíveis.
Não vem aqui para o caso estar a contar o que se passou, porque não é assunto da minha vida. Nem, por uma questão de pudor, faz sentido identificar as pessoas em causa. Provavelmente há aí desse lado quem até saiba de quem estou a falar, mas é melhor, é mais respeitoso, não falar nas pessoas em concreto.
Eu não acredito em deus. Só acredito no Senhor dos Aflitos, porque passo todos os dias de carro à porta da capelinha dele e aproveito, já que estou ali, para meter umas cunhas. Mas se eu hoje acreditasse em deus, ou se o Senhor dos Aflitos acreditar, peço-lhe por essa rapariga do diário, pelo marido dela e pelos outros familiares deles. Para que não ele deixe que esta coisa terrível que lhes aconteceu, lhes destrua as vidas. Para que eles continuem a acreditar e para que continuem a ter coragem e para que continuem a gostar da vida. Para que continuem a ser bonitos e interessantes e mesmo felizes como eram. Mas sobretudo para que não se destruam. Para que consigam continuar a abrir o diário e a escrever estas palavras mágicas: ‘hoje não me aconteceu nada de especial’.
rosas

kimmo pohjonen

Menos de um ano depois da última vez, de novo Kimmo Pohjonen no palco do Gil Vicente, desta vez a solo com multimedia ao vivo de Mirita Liulia. Este espectáculo Animator é, comparando com o anterior, mais performativo, resultante, acho eu, não apenas do facto de Pohjonen estar sozinho, como da colaboração da Liulia.
De certa forma já se sentia uma certa predisposição do público para aderir à performance de KP, e a forma do artista se apoderar do palco, é muito arrebatadora, por isso não admira que tenha sido uma prestação muito calorosa.
É difícil falar da música de KP, impossível defini-la, para mais neste Animator, em que a exploração dos sons, da voz, das capacidades do acordeão como fonte sonora, vai até ao limite daquilo que convencionalmente se denomina por música. Um dos aspectos que eu acho mais aliciante é o facto de nos apercebermos da prestação musical de KP. Quero dizer com isto que, apesar a utilização de samplers e do registo electrónico, a parafernália tecnológica é muito reduzida, e, se estivermos com atenção, podemos perceber o modus operandi de KP em palco, o que, diga-se desde já, só aumenta o respeito e a capacidade de desfrutar a performance musical.
O que se nota neste espectáculo, por exemplo em comparação com o que vi anteriormente, é essa vontade de ocupar o palco de uma forma ainda mais teatral, quase ballética, ao mesmo tempo que a colaboração com ML lhe dá um alcance estético assinalável.
Enfim, para além do entusiasmo e da exaltação que é assistir ao KP ao vivo, reforça-se sempre a vontade de o tornar a ver de novo em palco.



Uma explicação.
Pela primeira vez aqui no innersmile, apaguei um comentário e depois até cheguei à conclusão que era melhor retirar os comentários da entrada anterior. Peço desculpa à pessoa cujo comentário apaguei, fi-lo apenas porque vinha lá escrito o nome de uma das pessoas de quem falei na entrada. Pode ser esquisitice minha, mas a verdade é que não me apetecia identificar as pessoas em causa. Achei que isso não só não era relevante, como até era uma certa falta de pudor. Ok que as pessoas em causa decidiram falar do assunto publicamente. Mas nem isso me confere o direito de o fazer. E mesmo que me confira esse direito, também me confere o dever de não o fazer. Como disse, apenas por pudor e por respeito.
Se falei no caso aqui no innersmile, sem identificar as pessoas e sem referir em concreto a situação que ocorreu, foi apenas porque fiquei chocado com o que li. E como as pessoas em causa estão de alguma forma ligadas, ainda que de modo involuntário e insuspeito, à história do innersmile, foi só uma forma de expressar alguma solidariedade pessoal em relação ao que lhes aconteceu. Se calhar, foi um erro, apesar de eu o ter feito, repito, da forma mais anónima que consegui.
Não é muito frequente, felizmente, mas por vezes a ‘blogging life’ tem esta coisa incrível de suscitar problemas de consciência, de nos pôr perante dilemas morais. Curiosamente com este episódio sinto que aprendi alguma coisa.