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rosas
innersmile
No futebol português há determinadas particularidades no que se refere ao fenómeno do hoLIGAnismo.

os inadaptados
rosas
innersmile
Enviaram-me para o mail um ficheiro intitulado ‘Os 13 Mandamentos do Século XX!’, uma daquelas coisas que pretendem ter graça e distrair-nos um pouco do trabalho. Acontece que este documento é bastante mais interessante do que se poderia pressupor à partida, e a sua análise revela bem algumas das verdades incontestadas deste tempo em que vivemos.
De uma forma geral, todos estes chamados mandamentos preconizam uma atitude de ‘chacun pour soi’, salve-se quem puder, em que atropelar o outro é a melhor forma de evitar ser atropelado. Aliás, um dos mandamentos diz mesmo que ‘se não atropelares o tipo que vai à tua frente, serás atropelado pelo tipo de trás’. Dá, por este, para ver o estilo dominante. O único a que achei verdadeiramente graça, porque achei de uma clareza lapidar, é o que diz ‘não tomes a vida muito a sério, não sairás dela vivo’. Este mandamento está até um pouco em contradição com os restantes, que de forma geral pressupõem uma atitude de não perder nem a feijões, e talvez seja por isso que eu lhe tenha achado graça.
Mas houve um destes mandamentos que me perturbou verdadeiramente. Diz assim: ‘os honestos são simples inadaptados sociais’. Eu sei que isto pretende ser uma chalaça, mas a verdade é que, hoje em dia, a maior parte dos portugueses acha mesmo isto, como de resto se provou pelos resultados nas eleições autárquicas dos candidatos indiciados com a prática de crimes de corrupção, cometidos no desempenho das suas funções.
A verdade é que eu tento ser um tipo honesto e a maior parte das vezes sinto-me um inadaptado social. Tanto que às vezes até tenho uma certa vergonha, um certo embaraço vá lá, de assumir determinadas coisas, porque sei que elas vão-me fazer passar pelo papel de tanso. Uma delas, a que me custou mais caro, foi ter sido um dos raros tipos que conheço a declarar às Finanças, para efeito do cálculo da sisa, o valor total do apartamento que comprei. E lá paguei um porradão de imposto. Um destes dias estava a ter uma conversa calma, e às tantas o meu interlocutor disse-me que não acreditava que eu, no desempenho de funções públicas, não aproveitasse para meter algum dinheiro ao bolso, tipo luvas, se disso não resultasse prejuízo para o Estado ou para o interesse público. E ele não acreditou quando eu lhe garanti que não, que isso nunca me passaria pela cabeça, que não havia legitimidade nenhuma em eu aproveitar um ganho pessoal num negócio que eu estivesse a fazer em nome e com o dinheiro dos outros, no caso dos contribuintes. Mesmo que daí não resultasse prejuízo para os contribuintes, sim.
E o que é incomodo é que, tal como dizia o tal mandamento, há uma certa sensação de inaptidão social nesta coisa de um tipo tentar ser honesto. Aquela sensação de que o parvo sou eu. Ainda hoje, à hora do almoço, não estacionei o carro à porta do restaurante porque achei que não era correcto, mesmo que não fosse proibido, claro que enquanto fui estacionar mais longe e vim a pé, houve dois tipos que pararam em cima do passeio, no lugar onde eu achei que não devia parar, e que entraram no restaurante à minha frente. Mais uma vez, o parvo fui eu.
Mas não suporto esta ideia de que um tipo tem de safar, marimbando-se para os outros, prejudicando-os se for preciso, ou simplesmente ignorando-os porque são tansos. E não percebo muito bem como é que conseguimos viver felizes num tempo e numa sociedade em que fundamentalmente não há respeito pelos outros. Respeitar os outros é achar que não temos mais direitos que os outros, que não precisamos necessariamente de chegar em primeiro, de estar sempre à frente dos outros; que não precisamos de estacionar o carro mais perto do café, se com isso, por exemplo, ocupamos o passeio e obrigamos o pessoal que anda a pé a ter de pisar a valeta para conseguir passar. Parece comezinho, eu sei, mas a atitude é precisamente a mesma.
O que é estúpido neste egoísmo arrogante é que ele assenta numa falácia, numa falsidade, em suma, numa mentira que nos recusamos mais ou menos conscientemente a desvelar, com medo de com isso parecermos mais fracos: a de que faz parte da nossa condição vivermos em permanente estado de necessidade dos outros, precisarmos dos outros como de pão para a boca.
Pronto, perdi-me, mas era este o sermão.