October 24th, 2005

rosas

she hate me

She Hate Me, a mais recente joint de Spike Lee a passar em Portugal (incompreensivelmente, muitos dos seus filmes nunca estrearam por cá), é um filme muito complexo, por isso deixa-me tentar por alguma ordem nisto.
Como ponto de partida para o filme, parece haver a intenção de fazer uma sátira sobre a América actual, que, parece ser essa a ideia do autor, atingiu um ponto de desregramento total, uma espécie de vale tudo, porque tudo gira à volta de apenas duas coisas: dinheiro e sexo. Para isso, Lee conta uma anedota: Jack, o vice-presidente de uma companhia farmacêutica, despedido e perseguido por ter denunciado uma falcatrua financeira, vê-se empurrado, pela sua ex-namorada, para a lucrativa actividade de engravidar, por métodos naturais, lésbicas que querem ter filhos.
Já de si, este ponto de partida raiava os limites da verosimilhança, mas Spike Lee, dotado de uma imaginação prodigiosa, vai acumulando histórias, episódios, alguns deles ainda relacionados com o ‘main event’ do filme (por exemplo, o aparecimento do patrão da Mafia Bonasera cuja filha também recorre aos serviços de Jack) outros que aparecem u bocado metidos a martelo com a intenção nítida de cumprir o programa político de Lee para este filme (por exemplo, a história injusta de Frank Willis, o segurança nocturno do edifício Watergate, que iria chamar a polícia na noite em que a CIA assaltou a sede da Convenção Democrática, e de que resultaria o escândalo que levou à demissão de Nixon).
Todo este acumular de coisas paralelas (acho que é no site do crítico Roger Ebert que se diz que SHM daria para cinco filmes diferentes) comprometeria à partida a eficácia narrativa do filme. Mas, claro, Spike Lee é um grande realizador, e consegue segurar sempre todas estas pontas, fazendo o filme evoluir sempre, e sempre com uma grande economia (parece paradoxal, mas num filme tão disperso, toda essa dispersão parece fazer sentido e ter utilidade narrativa) e com um grande sentido rítmico.
Na verdade, o filme parece quase construir-se como um número de jazz, a que não falta a base, os temas, os solos; mas para esta noção jazzistica do filme contribui muito aquela que deve ser das melhores bandas sonoras dos últimos anos, a cargo de um grande nome do jazz, Terence Blanchard: não só a música fornece o contraponto aos vários momentos do filme, como há momentos que parece condensar a própria essência da narrativa. Também não se pode deixar de falar num casting impressionante, onde pontuam nomes como o da sempre entusiasmante Ellen Barkin, do grande Ossie Davis, da Monica Bellucci ou do John Turturro, mas onde sobressai, como não podia deixar de ser o Anthony Mackie a fazer, com grande classe e alma, o protagonista.
Dá a impressão de que por vezes Spike Lee é um realizador mal-amado. O que não admira, porque sempre assume uma postura politicamente incorrecta, agressiva, sem papas na língua, onde a sátira tem sempre um amargo sabor a sarcasmo. Mas uma coisa é inegável: Lee, depois do soberbo 25th Hour, continua a fazer algum do melhor e mais entusiasmante cinema que nos chega do outro lado do Atlântico.