October 23rd, 2005

rosas

alice

Há uma cena em Alice, o filme de Marco Martins, em que Mário, o protagonista, está sentado num banco de rua ao lado de um tipo com ar de doido, com uns óculos de lentes grossíssimas. Mário levanta-se e o tipo fica a olhar para ele, a cabeça um pouco de lado, com uma expressão de absoluta perplexidade. De certa forma é esse o olhar que suscita este filme admirável. É esse o olhar que o filme lança à sua personagem, um olhar incrédulo e perplexo perante aquela dor incompreensível, como se o próprio filme não percebesse a força que empurra Mário para fora e para a frente num percurso que a câmara tenta seguir e estabelecer. E é igualmente esse olhar perplexo o nosso, que em agonia tentamos ler no filme um sentido para aquela dor imensa, uma saída que seja possível racionalizar.
O filme, de certa forma, é o lugar desse vazio que aos poucos ocupa o lugar da dor. Uma linha frágil que unifica todos os elementos: o automatismo das rotinas de Mário, a sua dor inesgotável, o pulsar anónimo e cinzento, húmido e frio, da cidade e dos seus habitantes e dos seus constantes movimentos, a pé ou de automóvel. E é essa linha frágil, marcada apenas pela necessidade de inspirar e expirar, de manter acordado o impulso, o batimento cardíaco, que o filme procura. Como se aquilo que nos salva da loucura ou da morte fosse apenas uma obsessão de viver.
Claro que um filme assim, com uma narrativa apesar de tudo frágil, tem de viver de pilares muito fortes. Como a interpretação absolutamente genial de Nuno Lopes que nos dá, num mesmo olhar, num mesmo gesto (ou a sua ausência), o terror do vazio e a obstinação da busca. Como a música de Bernardo Sassetti, que é de uma melancolia lírica e pungente. Como os próprios recursos fílmicos da obra, seja ao nível do discurso narrativo (o filme usa de forma exemplar a elipse, que dá tempo e respiração ao movimento e ao percurso da personagem de Mário), seja, por exemplo, ao nível da fotografia e da qualidade da imagem.
Alice é um filme de uma tristeza total, profunda, absoluta. É um filme de dor, como nas terríveis cenas da esquadra da polícia, em que o desespero de Luísa se situa nas margens da visibilidade e do pudor. É um filme de desesperança, como nesse desamparo insuportável em que Mário mergulha depois de desconhecer na menina de casaco azul a sua filha desaparecida. Mas é um filme de prazer e reconhecimento. De prazer, porque é uma maravilhosa experiência de cinema, do prazer de fazer e ver cinema, de domínio dos seus vocabulários, e das suas linguagens. E de reconhecimento porque o que Alice nos dá é a medida dos nossos sentimentos e das nossas emoções. Comove-nos aquela tristeza, aquela impossibilidade de compreensão, porque tem exactamente o tamanho e a medida da nossa vida.
rosas

meus quadros

Inaugurou-se, ontem, uma exposição de pintura de um amigo meu. O Efe está a fazer a sua terceira exposição individual, com trabalhos realizados no ano passado e no presente, em óleo, acrílico e aguarela.
Já uma vez escrevi aqui, a propósito de uma outra exposição de outros amigos, que nunca conseguimos olhar para este tipo de coisas sem que o nosso olhar seja contaminado pela circunstância de sermos amigos dos autores. E neste caso quando eu já conhecia alguns dos quadros e já os tinha discutido com o Efe.
Mas, apesar de tudo, há quadros e quadros nesta exposição. Aquilo que me agrada muito na pintura do Efe (quanto àquilo que me agrada mais, já lá vamos) é que é muito figurativa, está muito próxima do desenho, da composição. Por vezes, lembram-me banda desenhada, de tal modo me sugerem ficções, me contam histórias. São esses os quadros de que mais gosto, sem dúvida. Porque, possivelmente, são aqueles que melhor consigo ler, ou antes: são aqueles de que mais facilmente me aproprio.
É fascinante conversarmos com o autor sobre a sua obra. É um mundo que se desdobra à nossa frente, sem dúvida. Mas também pode ser um pouco limitativo, porque depois de explorarmos um quadro com a ajuda do olhar de quem o criou, torna-se mais difícil criarmos o nosso próprio sentido, lermo-nos a nós no quadro sem a ajuda do autor. É uma experiência interessante: apaixonei-me por um dos quadros da exposição quando o Efe mo explicou. Mas também me apaixonei por outro, apesar da explicação do Efe; ele disse-me o que o quadro representava, mas isso só constituiu o ponto de partida para a minha própria relação com o quadro.
Mas subjacente a isto tudo, há aquilo que me parece essencial na pintura do Efe, e que é o modo como ele usa a cor. Não sou capaz de explicar, domino muito pouco os códigos que me permitiriam analisar a pintura como deve ser. Mas o tamanho da minha ignorância não me impede de me fascinar com aquela utilização quase erótica da cor, ou melhor, da tinta. Porque o que dá erotismo à pintura, não é a cor, mas a tinta, o material, a quantidade de tinta que se agarra ao pincel, a forma como o pincel se derrama na tela. E é olhando para os quadros, para a forma densa (sim, meu caro, é sempre esta expressão que me vem) como a cor vai ocupando a tela, num gesto que é simultaneamente quente e sóbrio, subtil mas extravagante, discreto mas assertivo, que eu vou tentando construir, não já a matéria de que é feita a sua pintura, mas a essência e a natureza do seu pintor.