October 20th, 2005

rosas

lorde, de joão gilberto noll

Li o livro de uma assentada, entre o final da tarde de Sábado e o início da tarde de Domingo. Certo que o livro é breve, uma centena de páginas, mas é uma escrita cerrada, densa, no entanto desenvolta e corrida. ‘Lorde’, de João Gilberto Noll lê-se como uma deambulação, em que as casas, as paisagens e as ruas por onde o protagonista vai passando fossem o reflexo de estações interiores que ele tem de peregrinar, não tanto em busca de alguma coisa, mas sobretudo procurando perder coisas, perder camadas de pele.
É um livro estranho, marcado por um subtil mas pulsante erotismo, e que se desmultiplica, através das peripécias pelas quais o protagonista vai passando, em ressonâncias, como se a narrativa fosse uma tela onde sucessivamente se projectam sugestões, ou melhor fantasmas de outras narrativas.
Além disso, o próprio autor se assume como um escritor de linguagem, e isso é muito notório no livro, onde é muito legível que é a própria linguagem a determinar o destino da personagem, que ela vai aonde as palavras a levam. E isto é sempre muito aliciante. Quer dizer, desde que o livro seja muito bem escrito, desde que o escritor domine (também gramaticalmente) o texto, o que é obviamente o caso.

Notas pessoais. Primeiro, que li o livro sob uma forte comoção pessoal. Passei o fim de semana bastante agitado, por vezes à beira do transtorno. E a leitura compulsiva do livro de Noll, o seu pulsar erótico, esse passeio pela arquitectura de uma cidade feito sempre sob o completo domínio de uma experiência física, corporal, tudo isso se misturou com a minha própria perturbação emocional. A verdade é que olho para trás, para o fim de semana, e quase não consigo deslindar aquilo que eu recebi do livro, que passou do livro para mim, daquilo que eu próprio fui passando para o livro, com que o fui alimentando.
A outra nota é que essa experiência de leitura pessoal, íntima, que fiz do livro, passou também muito pelo facto de o livro, enfim a sua maior parte, se passar nas ruas de Londres, em percursos que eu fui, daqui do lado de fora das páginas, sendo capaz de reconstruir. A minha vivência de Londres é, sobretudo, feita de solidão e deambulação. E essa experiência de andar a passear sozinho por uma cidade como Londres reflecte-se muito no livro, aliás, não só constitui o cerne da narrativa, mas é verdadeiramente o meio essencial do livro, aquilo que lhe dá corpo: a possibilidade de, quando andamos a flanar por uma cidade, estarmos disponíveis para todas as experiências, para viver todas as histórias, para ter todos os encontros. Inclusivamente, encontrarmos casualmente na dobra de uma esquina, uma outra possibilidade de sermos nós um outro eu.
Uma terceira nota, e espero que isto não soe a presunção, mas o final do romance de Noll fez-me lembrar o final de um conto que eu escrevi aqui há uns meses (e pus no innersmile), um conto que era dedicado ao Saint, inspirado em ‘coisas nossas’, e que desenvolvia, justamente, a situação de alguém acordar um dia sendo uma outra pessoa, sendo ‘o outro’. Que eu leia o João Gilberto Noll porque o Saint me pôs a ler escritores brasileiros, e neste caso ainda mais porque eu lhe mandei uma mensagem a perguntar se devia ler o livro, e que o livro de algum modo retome um conto que eu escrevi e que tinha por tema a relação entre mim e o Saint, só torna a experiência de ler este livro ainda mais intensa e íntima.