October 19th, 2005

rosas

asa negra

É um voo de andorinha, asa negra desenhada, tatuada no teu peito. Asa negra, a camisola justa que te cinge o tronco estofado. Dedos cegos correm as encostas exageradas do teu peito. O fogo devora o teu hálito, a ternura tensa dos lábios quando me olhas.
Há as palavras que entretecem a tua ausência, a tua imponderabilidade.
Talvez de ti eu guarde um sentido, uma sede intensa que arranha as paredes, a superfície lacada dos móveis.
Lentamente sou uma ilha deserta. Um inaproveitado céu, onde se estendem todas as paisagens que não me mostraste. Eu sei que tive na mão o crescente pulsar de uma onda, mas acabo na areia, como o tempo que se esvai na tua pele. A tua pele. A esquina do teu braço, a interromper-me os passos, luz intermitente na madrugada dos dias que já passaram.
Mais uma vez, a marca dos teus pés quando te afastas é a marca dos teus pés quando chegaste. O modo como te sentas na cadeira, só posso inventá-lo. De ti, queria guardar a chuva copiosa das noites, que cura e varre e limpa a estrada. Queria guardar a primeira luz que desponta, pálida e tremeluzente, no curvo horizonte da tua nádega. Queria guardar os ramos das tuas árvores, as folhas que entretanto caíram ao chão, queria guardar a prova material da sua sombra em todas as horas do dia.
O teu queixo, linha áspera com que me lavras. O limite intransponível do teu rosto. As manchas, os sinais. O brilho negro da andorinha, o teu peito a refulgir nos teus olhos. O lugar de um beijo quando, por um momento, cerras as pálpebras.