October 16th, 2005

rosas

os edukadores

Confesso algum desconforto, mesmo um certo mal-estar, perante um objecto como o filme Die Fetten Jahre sind vorbei/Os Edukadores do realizador Hans Weingartner. É verdade, e o desconforto começa precisamente aí, que é um filme muito sedutor, muito bem estruturado do ponto de vista narrativo. É, digamos, uma história muito bem contada, e eu pelo-me por histórias bem contadas.
Simplificando um pouco, é a história de dois rapazes e uma rapariga que, por razões políticas, para denunciar o capitalismo, praticam a acção revolucionária de entrar nas casas dos ricos, desarmando o alarme, para desarrumar a mobília. Desse modo, destroem a sensação de invencibilidade que sempre assiste aos vencedores do capitalismo. Numa dessas acções, são surpreendidos pelo dono da casa, com quem a rapariga tivera um acidente de trânsito e que por isso tinha sido condenada à pena perpétua de lhe pagar o Mercedes. Os jovens decidem raptar o dono do Mercedes, levam-no para uma casa na montanha e, na que me pareceu a parte mais interessante do filme, confrontam-no e confrontam-se, num convívio de ideias, ideologias, passados e futuros. De caminho, a rapariga que namorava um dos rapazes apaixona-se pelo outro. Quando o beco sem saída em que se meteram parecia estar de alguma forma apaziguado, os três jovens devolvem o raptado a casa. Que os denuncia à polícia, que vai fazer um assalto à bruta à casa onde eles moram, para a encontrar vazia porque entretanto tinham-se mudado os três para uma cama de lençóis brancos.
E foi precisamente este final com punchline, este final à anedota, que me indispôs profundamente contra um filme que até me tinha dado muito prazer ver, indisposição essa que, à medida que o tempo passa, e que eu vou reflectindo, se estende a todo o filme.
Porque se o final fosse outro, se fosse, por exemplo, um final aberto, ele caucionava de verosimilhança toda a história. Assim como está, as duas horas do filme parecem apenas uma longa e simplista aula de catequese. Ora, o realizador do filme já devia saber uma coisa que aprendemos todos há muito com o Padre Américo, a de que não há rapazes maus. A de que na vida, ao contrário do que acontece nos filmes, não estão os bons de um lado e os maus do outro. E por isso o olhar maniqueísta do filme torna-se insuportável, de tão linear e tendencioso.
Aliás, roubando uma frase do filme, há um ponto em que se diz que ‘aqueles que não foram revolucionários antes dos 30 anos não têm coração, e os que o são depois disso, não têm cabeça’. Esta era uma das verdades interessantes que o filme podia ter seguido, tentar perceber qual o lugar das ideologias na nossa sociedade completamente globalizada e consumista, por que fímbrias, por que recessos, se pode afirmar hoje em dia alguém que recusa a uniformização ‘estandardizante’ das nossas exaustas democracias.
Mas o filme recusa isso, e prefere meter-se num beco sem saída. Em vez de arcar com a responsabilidade de reflectir seriamente sobre uma das grandes contradições da actualidade, o filme prefere tornar-se numa fantasia adolescente. E é tão demagógico e mal-intencionado, que verdadeiramente beatifica os três personagens tornando-os numa espécie de ‘os três pastorinhos do bloco de esquerda’. Até aquela coisa simpática de eles não roubarem nem estragarem nada das casas que assaltam, se torna numa irritante acção de branqueamento dos três pastorinhos, que têm de ser radical e absolutamente impolutos e bonzinhos, não podem ter essas fraquezas que os tornariam perigosas personagens de carne e osso.
Como disse no princípio, ver o filme é uma experiência de prazer, o filme está muito bem feito. Para isso contribui uma óptima banda sonora, particularmente o Hallelluia versão Jeff Buckley, que, desde que entra no filme, o leva sempre até final. Tal como é de realçar o quarteto de actores que ocupam quase integralmente o tempo todo do filme, e sempre muito bem (gostei particularmente de rever a actriz que faz de Jule e que entrou num outro filme alemão que eu vi recentemente, e de que gostei bastante, o Sophie Scholl).
Já tenho por aqui dito que uma das características do meu gosto cinéfilo é que, ao contrário do que mandam as regras, eu dou mais valor à narrativa do que à história, seduz-me mais a forma como a história é contada do que a possível mensagem ou o fundo da coisa. Por isso, irrita-me ver neste filme desprezado o talento narrativo em nome de um certo infantilismo ideológico que pretende, espero que sem conseguir, domesticar as nossas inquietações e perplexidades. Não há respostas fáceis, meus amigos. Caso contrário, o ar não se teria tornado tão irrespirável nesta latrina.