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conto: documentário
rosas
innersmile
DOCUMENTÁRIO

Há um momento-chave, durante o qual parece que tudo se cristaliza. No caso, foram os vinte minutos que demoraram a percorrer um troço de uma auto-estrada no sul. Corrida vertiginosa, em alta velocidade, menos para chegar a algum lugar do que para fugir depressa de alguma coisa. Uma necessidade de pôr distância, neste caso traduzida em quilómetros de alcatrão, entre o sujeito que vai ao volante, e o lugar de onde acabou de sair. Àquela hora, pouco depois da meia-noite de um dia de semana, há poucos automóveis a viajar na mesma direcção do carro que desliza em excesso de velocidade. Pelo contrário, os faróis que encadeiam a partir da faixa contrária são constantes. No rádio do carro toca uma música muito calma, que convoca, em forma de notas musicais, e com simplicidade desarmante, toda a beleza do mundo, todos os lugares belos que os olhos de alguém já viram antes de cegar. É uma música cósmica, mas ao mesmo tempo como se saída de uma roda de homens em volta de uma fogueira, ao ar livre, de noite, talvez uma noite como esta, talvez esta mesma noite, numa aldeia perdida de um trópico qualquer.
E é entre a vertigem de uma velocidade excessiva e a tranquilidade espiritual quase absoluta da música, que segue o condutor do carro. Ele sabe que corre para um lugar mais feliz, mas, neste momento que dura a solitária viagem, todo ele é uma ferida, uma chaga. Talvez por isso a música maravilhosa que sai dos altifalantes do automóvel lhe pareça inacreditavelmente vazia, uma música que só existe no lado de fora, numa latitude improvável. Pelo menos àquela hora da noite. A verdade é que o condutor do automóvel chora, grossas lágrimas turvam-lhe os olhos, transformando a estrada rasgada pelos faróis dos automóveis que se deslocam em sentido contrário, num manto opaco de luzes cintilantes, e escorrem-lhe pela cara abaixo, até o homem lhes sentir o reconfortante gosto a sal nos lábios.

Dentro de momentos o carro sairá da auto-estrada, o condutor vai encostar no pequeno parque de estacionamento junto à portagem, vai limpar as lágrimas do rosto com as costas da mão, talvez mesmo com a fralda da camisa que usa por fora das calças. Vai puxar do telemóvel e fazer duas chamadas.

Cerca de meia-hora antes, o homem que conduz o automóvel estava sentado num sofá confortável, numa sala com um ar ao mesmo tempo moderno e aconchegante, se bem que um pouco desarrumada, a beber um vinho doce. Na televisão passava um documentário sobre a vida animal selvagem, leões ou elefantes, para o caso tanto faz. Ora, por entre os comentários que o condutor do automóvel e o homem que estava sentado ao seu lado trocavam, o condutor do automóvel tomou de súbito consciência de que ele próprio e o homem sentado ao seu lado poderiam ser personagens, ou melhor, objecto de um documentário televisivo que usasse o mesmo tom de rigor e desapego científico, as mesmas imagens desafectadas pela emoção humana, apenas uma curiosidade superior, cheia de bonomia e interesse, a dominar o registo. Belas imagens, claro, que a natureza é sempre um espectáculo deslumbrante.
De súbito, ou não tão de súbito como isso, o condutor do automóvel tomou consciência de que entre ele e o homem sentado ao seu lado, tudo o que restava era a arqueologia de uma relação, as ruínas, bem conservadas apesar de tudo, dos sentimentos que os ligaram durante toda a vida e que, por força da erosão do tempo e da distância, do afastamento e da incompreensão, foram gradualmente sendo substituídos pela sua imagem, pela sua fotografia, pelo seu símbolo. A tal ponto que só então, sentado no sofá a beber o vinho doce, depois de uma hora ou duas de conversa amena de circunstância, mas em que foram cirurgicamente evitados todos os assuntos que pudessem ser problemáticos ou dolorosos, o condutor do automóvel percebeu que o homem sentado ao seu lado era um completo estranho.
Quando, mais tarde, se despediram, o homem veio acompanhar o condutor até junto do carro. Trocaram um aperto de mão circunstancial, mas de onde, apesar de tudo, se sentia que desprendiam uns fios de afecto. Coisa antiga, com certeza, feita de recordações de infância, de brincadeiras na rua, de cumplicidade raras mas apesar de tudo existentes. O condutor arrancou e ficou a ver o outro homem a atravessar a rua, numa passo pesado e vagaroso, em direcção à porta de casa. Até que o carro dobrou um cruzamento, e o espelho retrovisor ficou vazio.

O condutor do automóvel desliga o telemóvel. De certa forma, estes dois telefonemas repuseram alguma ordem no mundo e, apesar de se sentir exausto, o condutor sente igualmente uma certa paz. Uma tranquilidade que o leva a ligar o rádio do carro, e a prestar atenção à música que parecia agora estar em total sintonia com o sossego da noite e com a serenidade que ele próprio vai sentindo aumentar. Os faróis dos carros continuam a cruzar quase incessantemente a faixa da auto-estrada, lá ao fundo. Põe o carro a trabalhar, engrena primeira e arranca. Esse momento-chave, durante o qual parece que tudo se cristaliza, passou.
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molhar a sopa
rosas
innersmile
Comecei a escrever isto como comentário a um post (da triciclo), mas depois achei que tinha o direito de molhar a sopa também aqui no innersmile.
Nunca li nada da MRP. Não por preconceito, mas apenas por achar que não ia achar graça, a avaliar por umas coisas, tipo crónicas, artigalhadas, por que fui passando os olhos. Talvez por isso nunca senti necessidade nem nunca me entreti a dizer mal dela. Não me incomoda. Nem sequer consigo avaliar se ela é uma 'boa' escritora de literatura light; se for, óptimo, acho que esse tipo de livros têm lugar e utilidade. Se não for, como digo não me incomoda. Os livros dela são-me indiferentes. Ao contrário, por exemplo, do que acontece com o Paulo Coelho, que já me irrita por achar que muito do sucesso dele se constrói explorando um certo vazio (ignorante e obscurantista) de valores que hoje predomina e que leva as pessoas a sentirem a necessidade de comprar doses de uma certa espiritualidade fantasista ready made, como se fossem cápsulas. Ao contrário, parece-me que a MRP só pretende explorar uma certa necessidade de entretenimento fútil. Ora, apesar de tudo prefiro a superficialidade à malvadez.
Se com a quantidade de livros que a MRP vende já conseguiu criar hábitos de leitura em algumas, poucas que sejam, pessoas, isso já é bom. Tenho esse preconceito de que um povo que lê livros, mesmo que sejam da chamada literatura light, tipo best-seller de aeroporto, é sempre melhor do que um povo que só lê revistas tipo Maria e jornais desportivos. Há um grande medo dos livros, impera uma certa (falta de) cultura de que ler livros é perder tempo, de que os livros são uns calhamaços entediantes, com os quais não se aprende nada e só se perde tempo. Há muitas pessoas que são pura e simplesmente incapazes de pegar num livro e fazer aquele pequeno esforço de juntar as letras e tentar perceber o significado do que lá está escrito. Pode ser que por cada mil pessoas que leiam um livro da MRP, umas cinquenta percam esse medo dos livros, de lhes pegar com as mãos e com os olhos, e até encarem a possibilidade de entrar numa livraria de um centro comercial para dar uma vista de olhos e de comprar um livro. Pode até ser que umas dez fiquem a gostar realmente de ler e se atrevam a ler outro tipo de coisas digamos mais exigentes. Se isso acontecer, até podemos ficar um bocadinho gratos à MRP.
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