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102 minutos
rosas
innersmile
São histórias de pessoas como nós. Pessoas comuns, pessoas vulgares, que um belo dia, no caso uma terça-feira, se levantaram de manhã, apanharam o comboio ou o barco, e foram trabalhar. Que, à hora habitual, estavam nos seus escritórios, a beber um café, a pôr em ordem os papeis, a ver os mails, quando dois aviões de carreira comercial lhes entraram pelo escritório dentro.
São histórias de como, por entre a falência de um edifício, dos mais altos do mundo, que foi feito, como o Titanic, para não sofrer acidentes, e o caos de planos de evacuação mal testados e contraditórios, essas pessoas se entregaram, calma e determinadamente, à impossível tarefa de se salvarem e de salvarem os seus colegas e amigos.
São histórias de pessoas verdadeiras, maridos, esposas, filhos, mães e pais, irmãos e parentes, namoradas e amigos, que telefonaram a esses seus entes queridos. Umas vezes para os acalmarem, de que estavam bem. Outras vezes para lhes dizerem que já estavam fora do edifício, livres de perigo. A maior parte das vezes para tentarem perceber, através desses amigos e familiares que estavam a acompanhar os noticiários na televisão, o que é que se estava a passar realmente dez pisos acima ou abaixo do sítio onde estavam. Algumas vezes só para se despedirem, para dizerem que os amavam, para se sentirem menos sós e amedrontados, nesse momento terrível em que uma pessoa consegue ver recortado à sua frente todo o seu destino.
São histórias de pessoas como aquele tipo que se deslocava numa cadeira de rodas eléctrica, pesadíssima, impossível de descer pela escada, e do amigo que lhe ficou a fazer companhia enquanto aguardavam que alguém os viesse salvar. Ou de um grupo de tipos que, poucos andares abaixo do ponto onde um dos aviões embateu, desbloquearam a saída, puseram os colegas a salvo, e depois decidiram subir aos andares seguintes para tentar libertar outras pessoas que estivessem encarceradas. Ou das imensas pessoas que ficaram feridas, algumas com gravidade, e que com a ajuda dos colegas conseguiram descer a pé dezenas de andares. Ou das dezenas, centenas, de bombeiros e polícias que subiram a pé andares e andares vazios, à procura de sobreviventes ou de focos de incêndio, sem que alguém lhes dissesse que estava na hora de se salvarem a si próprios e saírem dali. Histórias de pessoas que ficaram encurraladas nos andares superiores, e que, à medida que o fumo e o calor iam tornando as condições insuportáveis, se içavam para fora das janelas até que, voluntariamente ou não, se despenhavam da altura de cem andares.

Todas estas histórias, de pessoas comuns e vulgares, como nós, que nessa terça-feira se levantaram para irem trabalhar, aparecem num livro impressionante e trágico, intitulado 102 Minutos, da autoria de Jim Dwyer e Kevin Flynn (Ed. Presença), e que relata o que foi a vida, a matéria de que a vida foi feita, no interior das torres gémeas do World Trade Center, nesses longos e vertiginosos minutos que duraram entre o primeiro embate de um avião numa das torres, e o seu completo desmoronamento. O livro não está isento de tese, muitas páginas dedicam-se a comprovar que aquilo que transformou um cruel e totalmente irracional (mas não são sempre?) atentado terrorista numa tragédia de proporções inimagináveis, verdadeira face do horror que pode tomar conta da nossa vida moderna, foi um amaldiçoado concurso entre falhas de segurança na construção e a desarticulação dos organismos de protecção civil. Mas o mais importante do livro são as histórias. De pessoas comuns, vulgares, como nós.
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