October 4th, 2005

rosas

(no subject)

Muitas vezes a genialidade é apresentada como uma coisa excêntrica e extravagante. Os génios querem-se tipos muito despassarados, sem sentido prático, totalmente dessintonizados do mundo que os rodeia já que passam o tempo com a cabeça enfiada nas altas nuvens a sua genialidade.
Ontem à noite, a rtp2 passou uma entrevista da Ana Sousa Dias a um génio. Estranhamente, esse génio falou de coisas simples e importantes, como a cultura e a agricultura. Falou da importância de conhecer a cultura de um povo, e que só se pode verdadeiramente conhecê-la e divulgá-la se ela nos der prazer. Falou da importância da nossa terra, da terra de onde vimos ou onde escolhemos viver, e de como temos uma obrigação de a defender e a desenvolver. Falou da importância dos rios, das zonas férteis, das culturas, agora no sentido das coisas que se cultivam na terra. Falou também dos espíritos, de como importa percebê-los para poder perceber o mundo à nossa volta. Falou também da sua primeira guitarra, e de quanto ela custou.
Quando a entrevistadora, antecipando porventura uma resposta mais ‘floreada’, lhe perguntou o que ele sente quando está a actuar num palco internacional, respondeu que sente que está a mostrar a sua cultura ao público. Que Ali Farka Touré era um génio, já o sabíamos da música e dos discos. Descobrimos agora que é um génio dos da melhor espécie, aqueles que sabem que devem o seu génio aos outros e ao mundo que os rodeia.
rosas

bazar central

É verdadeira magia quando a Maria João começa a dar aos braços e às ancas, a dizer frases num linguajar quase incompreensível («tem manga, tem papaia, tem laranja»), a alternar continuamente o registo da voz, dos agudos perplexos aos graves sentenciosos, e de repente fechamos os olhos e estamos em pleno Bazar Central de Maputo. Os mesmo ruídos, os mesmos vozeares, as mesmas cores, os mesmos cheiros. A mesma música.
Eu não sei se ela treinou muito isso ou se é qualquer coisa que lhe sai espontâneo do lado mais preto da alma, provavelmente uma mistura de ambas, mas é um daqueles momentos em que o canto e a interpretação da Maria João deixam de ser só muito boas, para se tornarem pura e simplesmente perfeitas.