October 2nd, 2005

rosas

charlie and the chocolate factory

Finalmente, quase dois meses depois de ter estreado em Portugal, chegou a Coimbra o Charlie and The Chocolate Factory. É incrível, dois meses à espera do filme e vem logo para duas salas nos dois cinemas de Coimbra. Eu decidi ir vê-lo ao Avenida, para escapar às hordas de Sábado à noite no Centro Comercial Dolve Vita. Apesar de as condições de exibição serem piores, é um sossego ir ao Avenida. O risco, claro, é que um dia destes aquilo fecha por falta de espectadores.
E quanto ao filme? Foi um dos filmes de Tim Burton que me deu mais gozo ver, e isto é dizer muito, porque os filmes do Burton me divertem muitíssimo, é sem dúvida um dos meus realizadores preferidos. O Burton tem aquele universo muito coerente e muito distintivo, e é interessante ver como ele, sempre que pega numa história que não é dele, a consegue apropriar por inteiro.
Por outro lado, esse universo está tão desenvolvido, tão amadurecido, que os filmes do Burton começam a ser absolutamente irrepreensíveis, de uma beleza formal rigorosa e perfeita, mas onde ainda cabe o fascínio de Burton (e que explica porque tantos de nós nos fascinamos com os seus filmes) pelo lado negro das nossas almas, pelo outro lado do espelho. Como se sabe os contos de fadas são histórias de exemplo e virtude, que nos ajudam, quando estamos a crescer e atentar perceber as regras do jogo, a compreender o mundo à nossa volta, sobretudo o mundo das relações humanas, cheio de subtilezas e labirintos e alçapões. De certa forma, o que Burton faz nos filmes é mostrar o lado sombrio e cruel dos contos de fadas, acentuando essa coisa espantosa de que o sofrimento, a dor e a mágoa, são tão ‘naturais’ como a alegria e a felicidade.
O que o torna tão divertido, é a forma desarmante como o faz, expondo aquelas ridicularias que nós tentamos sempre esconder porque achamos que elas nos fragilizam. O seu segredo é, acho eu, fazê-lo sempre recorrendo a uma certa candura que tem muito a ver com a infância. De certo modo, é isso que é mais adorável, mas também mais assustador na infância: a capacidade de tomar as coisas pelo valor facial, ou não as tomar, mas sempre sendo rude, sem subtilezas, sem dúvidas ou perplexidades, sem metafísica.
Mesmo quando os seus filmes são luminosos e cromáticos como este Charlie and The Chocolate Factory, o mundo de Tim Burton é sempre a preto e branco. E talvez seja por isso que o Johnny Depp lhe serve tão bem, porque aquele rosto liso parece uma folha em branco, onde Burton pode inscrever essa enorme candura que nos permite ser, antes de crescermos, felizes e cruéis ao mesmo tempo.