September 25th, 2005

rosas

Camané

Período antes da ordem do dia: Milton Nascimento no canal Mezzo. E ainda há quem diga que nunca há nada de jeito na televisão!

Há um ano e meio vi o Camané ao vivo no Gil Vicente, no que terá sido um dos primeiros concertos da digressão 'Como Sempre... Como Dantes'. Esta noite, no CAE da Figueira, provavelmente um dos últimos antes de disco novo. O que é que mudou desde então até agora? Algo que parecia impossível: Camané está ainda melhor, o seu fado é ainda mais puro e essencial. O alinhamento do espectáculo está alterado em relação ao que tinha visto, começando agora pelo momento mais intimista da casa de fados. Depois Camané desce à plateia cantando 'a capella' (a metro e meio de mim...), e quando regressa já é o dispositivo normal de palco. Ou seja, O Fado da Sina foi o segundo tema da noite.
Aquilo que me ressaltou mais na noite foi a segurança do Camané (mesmo quando alterou um verso num fado, e teve de recomeçar), a segurança da voz, da presença, e a naturalidade, uma maneira muito simples de cantar, que torna o espectáculo numa celebração muito especial, como se estivessemos a assistir a um momento fundamental, quase religioso. E é assim o fado do Camané: despido de adornos, de artifícios, sempre respeitando, e por isso sempre muito próximo, das linhas melódicas e das palavras, sem aquelas suspensões irritantes que agora estão na moda e a que muitos cantores recorrem para mostrarem que têm muita garganta. Ter voz não é isso, não é fazer rodriguinhos e trinados. Ter voz é pô-la ao serviço da música, com a humildade que o Camané sempre demonstra e que o torna, sem dúvida absolutamente nenhuma, no melhor intérprete de fados da actualidade. E num dos maiores de sempre.
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felgueiras somos nós?

O que se tem passado em torno do caso Felgueiras, facção Fátima, é perturbante.
Perturbam, em primeiro lugar, os próprios contornos do caso: as condições em que se deu a fuga para o Brasil, há cerca de dois anos, e, simetricamente, a falta de transparência das circunstâncias em que se deu o seu regresso a Portugal.
Mas igualmente perturbantes são as reacções. Uns dizem-se chocados, outros perplexos, há um tom geral de censura que visa, se avaliarmos com rigor, o sistema judicial. E o que é estranho é a leveza com que pessoas de grande responsabilidade usam este tom de falsa indignação, apenas porque é politicamente conveniente.
Perturba ainda a ignorância dos jornalistas, que acresce e amplifica a dos políticos: na edição de hoje do Público, na secção do ‘Sobe e Desce’, uma nota sobre a juíza que suspendeu o mandato de captura a FF, nomeadamente sobre a utilização no despacho da expressão «alegadamente para o Brasil» (ou qualquer coisa próxima disto, a edição on-line do jornal não traz esta secção). O autor do texto do público indigna-se contra a juíza e acusa-a de nos tomar a todos por parvos, por estar, julgo que será esta a lógica, a fazer de conta que não sabe que FF esteve fugida no Brasil. Ora, parvo, e ignorante, é o autor do texto. 'Alegadamente' quer dizer que não há elementos no processo que provem a fuga de FF para o Brasil, e que por isso, na falta desses elementos processuais, a juíza dá por boas as alegações públicas de que FF fugiu para o Brasil. É só isso. A juíza que redigiu o despacho (independentemente da bondade ou não da sua decisão) não nos está a tomar por parvos; na realidade ela só tomou por ignorante o jornalista do Público!
Claro que o mais perturbante deste affaire Fátima Felgueiras, é o valor sociológico do próprio episódio. FF é a Eva Perón que nós merecemos. Apenas mais um exemplo dos políticos populistas e manipuladores que as autarquias e as bases partidárias produzem em catadupa. Interessante vai ser analisar o resultado eleitoral da sua candidatura. Aí sim, é que vai ser a prova dos nove. Mas atenção, que quem vai ser posto à prova não é FF, nem os políticos em geral; somos nós, o povo, os eleitores, é a nossa maturidade democrática, a nossa mentalidade e a nossa cultura, o nosso sentido cívico do que é correcto e do que está certo e de quais os limites que não deixamos serem ultrapassados, somos todos nós através dos nossos dignos representantes que são a população de Felgueiras, quem vai prestar a mais dura prova nesse dia eleitoral.