September 22nd, 2005

rosas

60 minutos com brecht

A peça estreou em Fevereiro (ou por aí), mas logo no dia seguinte à estreia um dos actores, e logo o que faz o protagonista, adoeceu gravemente e o espectáculo teve de ser cancelado. Agora, muitos meses e alguns by-passes depois, regressa à cena ’60 Minutos com Brecht’ uma selecção de textos de Bertold Brecht centrados na figura de Galileu Galilei, com encenação de Clovis Levi e cenografia de Susana Paiva. O papel do ‘velho pisano’ continua entregue a Fernando Taborda, e Rui Damasceno e Victor Torres compõem vários papeis coadjuvantes.
Gostei muito do espectáculo, sobretudo porque não houve a tentação de fazer uma coisa muito pomposa e muito moralista. Achei que as soluções adoptadas estavam à altura dos meios disponíveis, mas achei sobretudo que na concepção do espectáculo houve sempre uma ideia de teatro, um teatro de intervenção, que pensa e toma posição, mas ao mesmo tempo que pretende estar ao serviço do público.
Tenho de confessar que não sou absolutamente imparcial em relação a esta peça, e que tenho em relação a ela uma enorme boa vontade, apesar de achar que essa boa vontade não interferiu com o enorme prazer com que assisti ao espectáculo. É que ’60 Minutos com Brecht’ é uma produção de uma amiga minha, a Guida, uma daquelas amizades que duram desde sempre, e neste caso o sempre é desde que fomos colegas de liceu. Durante esse tempo e até durante uma certa fase da faculdade (onde também fomos colegas), fomos amigos chegados, companheiros de todos os dias e visitas de casa. Depois, a vida e o tempo foram pondo distância entre nós, mas mantivemo-nos sempre à vista um do outro, e sempre nos fomos encontrando casual e frequentemente. Esta foi a sua primeira produção, muito complicada e trabalhosa, e fico feliz por o resultado ser um espectáculo de qualidade Fiquei também muito comovido por, no seu texto do programa, a Guida dedicar este trabalho à memória do seu pai, que foi um homem que fez por Coimbra mais do que a cidade lhe agradece, muito mais.

Durante todo o espectáculo nunca deixei de ter na cabeça o ‘Poema para Galileu’, de António Gedeão. Para falar com franqueza, acho que a composição de Fernando Taborda assenta como uma luva neste retrato que Gedeão fez. Acho que até já o tinha posto aqui no innersmile, mas como fica sempre bem, aqui vai ele outra vez:

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juizes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.