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zona livre
rosas
innersmile
As minhas leituras parecem aquelas fórmulas matemáticas muito longas cheias de chavetas e parêntesis curvos e rectos. Muitos livros, e novas leituras a interromperem outras, do tipo de começar a ler um livro e no dia seguinte começar a ler outro, sem abandonar a ideia de voltar ao anterior. Não sei, mas um destes dias começo a baralhar os livros todos. Na origem deste problema está o facto de eu comprar muitos livros, só os poder ler à noite (e aos fins de semana, claro) e ainda por cima ler muito devagar. Naturalmente a solução seria ficar em casa duas semanas a pôr as leituras em dia, mas não sei se no meu job acharão graça à ideia. De qualquer forma, da próxima vez que for a despacho, pergunto.
Para além dos livros do Kotter e do Chianca, de que já falei aqui no innersmile, e que continuo a ler intermitentemente (o do Chianca tem sido leitura matinal, entre acordar e esperar que o despertador toque. Para quê o despertador? Pois...), li o Livro das Igrejas Abandonadas, do Tonino Guerra, de quem já tinha lido as Histórias para Uma Noite de Calmaria e o Mel.
No fim de semana passado, li os livros do Mário Quintana que o Saint-Clair me mandou (juntamente com o da Clarice Lispector).
Entretanto, comecei a ler Sala de Montagem, o livro anterior da Louise Welsh, que é a história de um leiloeiro que descobre no espólio de um tipo que morreu, um conjunto de fotografias sobre aquilo a que o livro chama um ‘abafamento’, e que é assim uma espécie de perversão sexual radical, pois consta basicamente em provocar a morte de alguém como parte do ritual sexual. O livro segue as tentativas do leiloeiro, já de si um tipo dissoluto q.b., de identificar a vítima e descobrir o crime. Comprei o livro porque gostei muito do anterior que li Louise Welsh, Tamburlaine Deve Morrer (apesar deste Sala de Montagem ser a primeira obra da autora), e o estilo rápido e corrido da narrativa, aliado à capacidade de construir ambientes e personagens, mantém-se.
Já esta semana comprei 102 Minutos, uma reportagem organizada por dois jornalistas norte-americanos, sobre a forma como foi vivida a catástrofe no interior das torres do World Trade Center, desde o momento do impacto do primeiro avião até ao segundo desmoronamento. O livro, de que só ainda fiz uma leitura muito em diagonal, baseia-se em relatos e documentos que testemunham essas vivências, e é um relato muito impressionante e perturbador do que foi o inferno vivido dentro das torres do WTC.
Finalmente comprei o Diário Remendado 1971-1975, de Luiz Pacheco, e em relação ao qual aconselho, por força da autoridade e da competência com que o faz, a leitura das notas que o Eduardo Pitta pôs no blog da literatura. Tenho com os livros do Luiz Pacheco uma relação muito antiga, e devo-lhe, naqueles anos decisivos que marcam o final da adolescência e a entrada na vida adulta, a descoberta de uma outra literatura, muito subversiva, muito livre, muito provocadora. Impressionou-me muito, e continua a impressionar, essa capacidade de o LP estar sempre, de forma literária, do lado de fora, conseguir ser sempre ‘apesar de’. Para falar com total fraqueza não me impressiona uma escolha de um certo modo de vida, a raiar a marginalidade, o inconformismo, que transparece da escrita autobiográfica do Luiz Pacheco, se bem que falar em autobiográfico a propósito de Pacheco é sempre um risco e uma limitação, de tal forma os seus livros estão libertos do condicionalismo do género. Mas estava a dizer que não me impressiona esse modo de vida; o que me impressiona em Pacheco é ele fazer uma literatura toda ela sustentada nesse modo de vida, ser tão literariamente livre, tão desconforme às regras e às conveniências. De certa forma, o que eu aprendi com os livros do Luiz Pacheco é que há sempre um reduto, íntimo e literário, onde a nossa liberdade é intocável, onde podemos sempre ser, não que somos, mas quem sonhamos ser.

filmes no coração
rosas
innersmile
Basta olhar para a respectiva página no imdb.com para perceber o papel de Robert Wise na indústria do cinema de Hollywood. Não são só os inúmeros filmes, mas é sobretudo a diversidade de participações, umas mais técnicas outras mais artísticas, e é também a variedade de géneros que tocou. Com efeito, não sendo um génio maior do cinema, RW percebia muito bem os códigos inerentes aos diversos géneros narrativos, e agarrava-os com a competência de um artesão.
Mas, naturalmente, para mim, como para quase todas as pessoas, o nome de Wise vem agarrado às suas duas obras mais conhecidas: Sound of Music, o Música no Coração, e West Side Story, dois musicais, realizados na década de sessenta, com poucos anos de intervalo, e que marcam, ambos e cada um à sua maneira, o paradigma de um certo cinema musical, que apesar dos anos e das tentativas, o cinema americano ainda não conseguiu ultrapassar.
Música no Coração é um dos meus filmes da vida, que me acompanha desde a infância, que já vi dezenas, centenas de vezes, ao ponto de saber de cor as canções, certos diálogos e passagens do filme. Não posso dizer que é um dos filmes que eu amo, porque o meu olhar em relação a ele é demasiado irónico para me comover. Mas é um filme que me diverte sempre, nunca falha, e que, para além de tudo, constitui como que um símbolo de uma certa infância que também foi a minha, e que, suponho eu, desapareceu de vez. Ou seja, diversão e nostalgia. Acho que já escrevi por aqui que uma das coisas mais divertidas em que participei foi numa sessão sing-a-long do Sound of Music, num velho cinema ali ao lado de Leicester Sq., em Londres, com metade do público vestido conforme diversas personagens do filme, e em que para além de cantar nas canções, ao público era permitido (quer dizer, era solicitado) que comentasse em voz alta passagens do filme.
West Side Story, o musical de palco, é considerado por muita gente o melhor musical de sempre. Muito provavelmente, é mesmo. Não só porque o libreto é uma clássica reedição da eterna história de Romeu e Julieta, actualizada para os gangs rivais da Nova Iorque dos anos 50, e de sempre, mas principalmente por causa da elevadíssima qualidade e intensidade dramática da música, com score de Leonard Bernstein e canções de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim. Ao contrário de Música no Coração, West Side Story é uma obra-prima do cinema, um verdadeiro clássico, que tem uma atmosfera fantástica, sequências absolutamente fabulosas (como a dos genéricos, inicial e final, por exemplo), e algumas das melhores e mais vibráteis coreografias apresentadas em cinema. Muito desta fibra que tornam WSS um filme especial, vem da intervenção de Jerome Robbins, o coreógrafo original do espectáculo, que o adaptou para cinema e que partilhou a realização do filme com Wise. A colaboração entre ambos correu de forma desastrosa, com um choque muito grande entre o espírito rigoroso de Wise e o excesso de Robbins. Este acabaria por ser afastado da produção e o filme, apresentado inicialmente como uma co-realização, acabou por ser atribuído, em termos de genérico exclusivamente a Wise. Mas, dizem os entendidos, que o melhor do filme, para além de Bernstein bem entendido, se deve à participação de Robbins.
Tenho ambos os filmes em dvd, em deliciosas edições especiais recheadas de extras, nomeadamente documentários feitos à data da produção original dos filmes, complementados com outros actuais, baseados em testemunhos e documentos fílmicos da época. São jóias preciosas, naturalmente, que nos ajudam a conhecer melhor os filmes e os seus autores. Que nos permitem, afinal, ficar a conhecer um pouco da matéria de que os filmes são feitos. E dos magníficos homens que tornaram o cinema a mais popular das diversões de carácter artístico do século XX. Como Robert Wise, precisamente.
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