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(no subject)
rosas
innersmile
PHOTOGRAPH FROM SEPTEMBER 11

They jumped from the burning floors -
one, two, a few more,
higher, lower.

The photograph halted them in life,
and now keeps them
above the earth toward the earth.

Each is still complete,
with a particular face
and blood well-hidden.

There's enough time
for hair to come loose,
for keys and coins
to fall from pockets.

They're still within the air's reach,
within the compass of places
that have just now opened.

I can do only two things for them -
describe this flight
and not add a last line.


- Wislawa Szymborska

(no subject)
rosas
innersmile
Na sexta-feira recebi uma encomenda do Saint-Clair, com três livros. Um da Clarice Lispector, A Hora da Estrela, e dois de Mário Quintana, uma colecção de poemas e o volume de ‘prosa poética’ Sapato Florido (também recebi uma carta, mas essa, como era o melhor da encomenda, fica só para mim).
Na noite da própria sexta-feira, li o livro de poemas (e vim logo a correr pôr um no innersmile), e ataquei as prosas. Que, por ter estado fora todo o dia de ontem, terminei apenas hoje de tarde.
A prosa de Mário Quintana parece um milagre que vai acontecendo nas nossas mãos que seguram o livro. Um milagre de simplicidade, uma transparência quase infantil, que só pode ter sido escrita por alguém muito sábio. Dá ideia de que Quintana descobriu o verdadeiro sentido da vida, e vai-nos desvendando o segredo devagar, com suavidade, ciente que para qualquer de nós, comuns mortais, uma revelação assim tão poderosa poderia ter efeitos devastadores, quiçá fatais. Então Mário, pessoa bondosa, levanta uma ponta aqui, outra acolá, põe esta verdade à vista, desnuda depois aquela outra. Eu acho que sei, que descobri, ou melhor que percebi esse imponente e magnífico segredo que Quintana desvenda. Mas quem sou eu para o revelar aqui?

Hoje, não consegui evitar estar a ler as prosas curtas e intensas de Mário Quintana com os olhos do 11 de Setembro. Tentar perceber o que aqueles textos, publicados pela primeira vez no recente ano de 1948, nos dizem acerca desse dia de todos o mais absurdo e perturbador, e sobre o qual passam hoje quatro anos. A verdade é que, não digo todos, mas muitos dos textos lidos, dessas curtas e intensas prosas poéticas, nos falam dessa perplexidade, desse acontecimento ao qual o tempo não oferece a cura da compreensão ou da lucidez.
Eis senão quando, a páginas 129 do volume, Quintana, por certo farto da minha intranquilidade inquiridora, decide explicar tudo tintim por tintim, num conto tão justamente apelidado ANANIAS.


Ananias olhou a folhinha: 11. 11 de Setembro. Tomou uma cafiaspirina. Deitou-se. Sobre a cadeira fulgem agora o metal dos óculos, o monograma do relógio, o vidro do copo. Fulgem, nos travesseiros, os seus cabelos grisalhos. O resto é sombra. Dorme Ananias,

que o bicho tutu
já vem te pegar…


Noite adentro, a alma de Mestre Rembrandt vai enchendo de sombra e prata o lívido interior de cinema mudo. De sombra e prata, e irreparável tristeza… Mas o mais triste de tudo é que eu não conheço nenhum Ananias neste mundo. E um dia Deus me pedirá contas de mais essa vida inútil, sem finalidade…
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