September 7th, 2005

rosas

chianca

O semanário O Independente editou, creio que o ano passado, uma colecção de livros, intitulada Horas Extraordinárias, com uma série de inéditos de imprensa, de escritores e jornalistas portugueses e brasileiros. O’Neill, Vinícius (sobre cinema, meu deus), Millôr Fernandes, Stau Monteiro, Agustina, entre muitos outros autores. Como não compro, nem leio, esse jornal, os livros passaram-me ao lado.
Agora, foram postos à venda em saquinhos de dois, ao módico preço de €3,99 cada par. Um destes dias, vi à venda um destes saquinhos com uma coisa fantástica, que eu nem sabia estar reunida em volume: os Bilhetes de Colares, de A. B. Kotter, que, descubro agora, foram de autoria do embaixador José Cutileiro. Embora sabendo que se tratava de um pseudónimo, nunca soube quem era o verdadeiro autor dos bilhetes, e muitas hipóteses foram aventadas em conversas com outros amigos admiradores das crónicas. Kotter, o suposto autor, era um inglês residente na Várzea de Colares, rodeado de familiares, amigos e visitantes, e que, sem nunca se atrever a criticar, nas suas palavras, «este país que tão generosamente me acolheu no seu seio», desenhava nos seus bilhetes retratos impiedosos de Portugal, dos seus poderosos, fossem eles da política ou da finança, mas também do povo português e da sua mentalidade. Uma ironia laminar, um humor prazenteiro, e uma escrita elegantíssima, ou não fosse Kotter inglês, se bem que a redacção dos textos fosse sempre maculada pelas traduções, da autoria do ex-comando J. Fonseca (palavra!, só quem não conhece os Bilhetes de Colares não percebe o gozo que dá falar destas personagens).
A fazer par com os Bilhetes, vinha um outro inédito, este sim uma verdadeira surpresa. Cartas do Brasil, da autoria de Chianca de Garcia, escritas desde o Rio de Janeiro, e publicadas no Diário de Lisboa, durante a década de 1960, e de novo nos anos de 1978-1981. Eduardo Chianca de Garcia foi um dos fundadores do cinema português, tendo sido o realizador de um dos filmes mais populares do chamado período de ouro da comédia portuguesa, Aldeia Da Roupa Branca, aquele em que Beatriz Costa cantava «Ó rio não te queixes, Ai o sabão não mata, Ai até lava os peixes, Ai põe-nos cor de prata». O filme é de 1938, e logo no ano seguinte Chianca emigra para o Brasil e estabelece-se no Rio.
Como não pode deixar de ser nestas coisas, depois de saciar as saudades desfolhando o livro do Kotter, comecei por ler as crónicas brasileiras do Chianca, que são histórias e observações acerca do Brasil, do Rio, relatos de encontros, homenagens, apontamentos literários. Ou seja, um blog avant la lettre!
Numa crónica datada de Março de 1965, Chianca de Garcia escreve sobre dois brasileiros ‘que vieram do nada’ (a expressão dava título à crónica original) e alcançaram o sucesso: Grande Otelo e a muito minha amada Elza Soares. O texto termina assim:
«- E você, Elza, nunca mais subiu o morro?
- Subo, sim. Vou ver o pessoal sempre que posso. Todo mundo é meu amigo. E ainda lá está o meu barraco. Agora, porém, abandonado…
Então Grande Otelo entra na conversa e tem esta ideia maluca: - Já estou vendo um filme contando a vida de Elza Soares. Começa assim: o governador do Estado, entre vivas! e foguetes, descerra, no alto do morro, uma placa onde se lê em letras de oiro: AQUI NASCEU E VIVEU ELZA SOARES!
Então, sem perder o fair-play, Elza conclui: - E eu já sei como acaba o filme. Um temporal danado arrasa o velho barraco. E as águas arrastam na enxurrada a pobre placa para sempre esquecida…
Pois é, leitor. Dois que vieram do nada.»