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(no subject)
rosas
innersmile
Há países de que eu gosto. Uns por os ter visitado e ter ficado apaixonado. Outros onde nunca fui, mas dos quais gosto por alguma razão que, muitas vezes, nem eu próprio percebo bem. Alguns dos países que eu gosto são: a Espanha, a Irlanda, o Reino Unido, a Hungria, o Egipto, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, a África do Sul, a Índia, o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, o Brasil, a Argentina, o Chile, Cuba, os Estados Unidos da América. Deve haver outros, mas estes são aqueles de que me lembro agora. O facto de eu gostar destes países faz com que me interesse sempre um bocadinho mais por aquilo que lhes diz respeito. E faz também com que eu fique sempre mais feliz quando acontecem coisas boas a esses países, e triste quando acontecem coisas más.
Vem isto a propósito dos efeitos devastadores do furacão Katrina nalguns estados do sul dos EUA. Fiquei muito triste. Como os EUA são um país muito grande e variado, também existem alguns estados de que eu gosto mais. Uns porque já lá estive, como a Califórnia, o Wisconsin, o Illinois, Maryland ou Nova Iorque. Outros porque fazem parte do meu imaginário, por razões mais ou menos racionais, mais ou menos compreensíveis. Um dos estados que eu gosto muito, por causa da música, por causa do Eléctrico Chamado Desejo, por causa de uma canção do Paul Simon, por causa das promessas de perdição, é o Luisianna, e mais propriamente Nova Orleães, a sua principal cidade, que foi precisamente uma das zonas mais severamente devastadas pelo furacão.
Fiquei triste por causa do surpreendente nível de destruição, da sensação de insegurança que tudo aquilo provoca. Tenho de confessar, não fiquei muito triste por causa do sofrimento das pessoas; fiquei consternado, isso sim, mas é sempre difícil ficarmos tristes em abstracto, por pessoas que não conhecemos. Fiquei triste pelo facto de a catástrofe ter posto à vista o facto de a linha que separa os ricos dos pobres coincidir com a linha que separa os brancos dos negros. Quer dizer, nós sabemos que isto é mesmo assim, mas é sempre muito triste (e incómodo, porque não dizer?) quando somos confrontados com isso da pior maneira possível, ou seja, contando os cadáveres. Fiquei triste, ainda, por haver pessoas que achem que o que aconteceu é uma espécie de castigo divino, de escrever direito por linhas tortas, por causa do que a administração Bush tem andado a fazer pelo mundo, particularmente no Médio Oriente; não gosto da noção de castigo, faz-me sempre lembrar aquela coisa de os fundamentalistas religiosos, sobretudo norte-americanos, acharem que a sida era o castigo divino para os homossexuais.
Os EUA são uma potência imperial em franca crise. Será a decadência do império e do capitalismo? Sei lá, é possível. Mas para mim, os EUA é viajar de carro, na realidade ou em sonhos, pelas imensas auto-estradas que abrem para paisagens vastas, irresistíveis e cheias de promessas; é parar, na realidade ou em sonhos, num café à beira da estrada para beber um café e comer um biscoito, e acabar a trocar abraços e juras de amizade com pessoas simpáticas e afáveis que, muito provavelmente, nunca mais veremos na vida; é atravessar de noite, na realidade ou em sonhos, as estradas desertas do subúrbio de uma cidade, e ter de parar o carro para não atropelar um veado, e é essa imagem, do veado parado no meio da estrada com a cabeça voltada a olhar para nós, ficar para sempre a arder na madrugada da nossa memória.