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rosas
innersmile
Eu tinha visto o filme apenas uma vez, já há bastante tempo, na televisão. E muito mais do que do filme, eu lembrava-me tinha ficado fascinado por ele. Não me lembro do filme, que é de 1993, ter passado cá. Nunca o tinha visto à venda. De vez em quando fui fazendo umas buscas na net, mas, ainda agora, tudo o que a Amazon inglesa tem para oferecer é uma importação do dvd, da região 1, e o vhs. Uma destas noites, para dar corda ao tédio, andei a passear pelo shopping, decidi entrar na Box para ao menos ver se havia pechinchas do Hitchcock, e de repente lá estava ele: o dvd de Six Degrees of Separation, ainda por cima a €7,95! E a boa notícia é que o filme é tão bom, ou melhor, do que eu me lembrava. Tão bom que eu nem sei por onde começar.
A história do filme é a de um casal de nova-iorquinos, Ouisa e Flan, ricos, cultos e sofisticados, que uma noite, quando se preparam para ir jantar fora com um amigo, vêm o apartamento ‘invadido’ por um jovem negro, Paul, que se diz colega dos filhos do casal em Harvard, e que acabou de ser atacado (esfaqueado) numa zona do Central Park mesmo em frente ao prédio. O jovem afirma que é filho do actor Sidney Poitier, e seduz os seus anfitriões com a sua simpatia, o seu carisma e a sua cultura. E, já agora, com o seu jeito para cozinhar, que o jantar fora é trocado por uma função caseira mais aconchegada e relaxada. Como resultado do jantar, o casal, que negoceia em arte, consegue fechar um negócio valioso com o tal amigo que tinham convidado. Na manhã seguinte, Ouisa e Flan descobrem que afinal as coisas poderiam não ser bem assim, e o resto do filme é sobre o impacto que esse encontro com Paul teve nas suas vidas.
O título do filme faz referência a uma teoria que já vem de inícios do século passado, de que qualquer pessoa no planeta está sempre ligada por um máximo de seis elos, a qualquer outra. Esta teoria, cuja demonstração foi sendo tentada quer através da matemática quer da psicologia, sem grandes resultados, tornou-se popular (enfim…) com a chegada da net, que permite estabelecer ligações entre pessoas remotas com muito mais facilidade, e deu origem a um jogo de salão, o Six Degrees of Kevin Bacon, e que consiste em ligar, através dos filmes em que participaram, nomes de actores; inicialmente, com Kevin Bacon, por causa da semelhança fonética do nome do actor com o nome da teoria.
E é nesta ideia que assenta a premissa do filme: a de que a nossa ligação aos outros é sempre tão próxima ou afastada como isso – nunca estamos a mais de meia dúzia de ligações de qualquer outra pessoa, mas encontrarmo-la depende sempre de se fazerem as ligações certas. A nossa ‘situação’ no mundo é assim sempre tão frágil ou poderosa. Caos ou Controlo, como no quadro de dupla face de Kandinsky que tanto fascina as personagens do filme.
O filme é adaptado de uma peça de teatro (da autoria de John Guare, que a adaptou) e Fred Schepisi, o realizador, fez bem em manter a estrutura teatral da história, porque isso dá ao filme tensão dramática e um tom sofisticado. Além disso, o texto é muito divertido, e muito desse humor passa por o filme conseguir estabelecer pontes com o espectador, como que o convidando a apreciar, de forma crítica e fria, mas não superior ou arrogante, as peripécias em que se metem as pessoas que acham que sabem tão bem viver que não percebem que a vida é sempre um jogo de que ninguém, nem Paul, conhece as regras. O filme tem diálogos brilhantes, muito bem escritos, daqueles que apetece tomar nota e passar o tempo a citar nos blogues!
Muita da eficácia do filme repousa nas interpretações. Ouisa e Flan são a extraordinária Stockard Channing e o sempre seguro Donald Sutherland, e Paul é desempenhado de forma surpreendente por um Will Smith muito novo, a fazer a transição do sucesso televisivo para o cinema, e a correr riscos num papel perigoso, e que o actor nunca haveria de retomar depois de estabelecer o seu nome na lógica da bilheteira.
É ainda importante referir que Paul é homossexual, e que esse facto é determinante em algumas das evoluções decisivas do filme. E é importante referi-lo por duas razões: a primeira porque o filme não segura a bandeira gay, mas também não usa o tema de forma degradante, antes se limitando a usar a homossexualidade da personagem como motor de alguns desenvolvimentos; e a segunda é porque o filme aspira a uma reflexção sobre o isolamento social, tanto como sobre a condição humana. E a verdade é que muita da distância que torna os nossos encontros tão frágeis e poderosos, radica nessas diferenças entre as pessoas que a vida em sociedade vai aprofundando, sejam elas em função da raça, da capacidade económica, ou da sexualidade.

«I read somewhere that everybody on this planet is separated by only six other people. Six degrees of separation between us and everyone else on this planet. The President of the United States, a gondolier in Venice, just fill in the names. I find that extremely comforting, that we're so close, but I also find it like Chinese water torture that we're so close because you have to find the right six people to make the connection. It's not just big names - it's anyone. A native in a rain forest, a Tiero del Fuegan, an Eskimo. I am bound -- you are bound - to everyone on this planet by a trail of six people. It's a profound thought - how Paul found us, how to find the man whose son he claims to be, or perhaps is, although I doubt it. How everyone is a new door, opening into other worlds.»
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rosas
innersmile
Só para contrariar o ulis:

- Ali Farka Toure, com Ry Cooder – Amandrai
- Seu Jorge – Rebel Rebel
- Liza Minnelli – Losing My Mind
- Kishore Kumar - Tera Mujhse Hai Pehle Ka
- Keith Jarret – Blame it on My Youth
- Alfred Brendel – Sonata N. 12, Op. 26, de Beethoven
- Renato Russo – Send in the Clowns


[Ah, duas canções do Stephen Sondheim. Obcecado!
Quando andava à procura do nome do tipo que canta o Tera Mujhse, li num site que o R.D. Burman, o autor da música, se "inspirou" na canção do Elvis Presley, The Yellow Rose of Texas. Ainda não fui confirmar, mas de repente, os últimos trinta anos da minha vida parecem uma tremenda perda de tempo. Será que ainda vou a tempo de recuperar?]