August 24th, 2005

rosas

(no subject)

Terminei no fim de semana passado a leitura de dois livros, ambos muito breves. Um de contos, que tinha começado a ler antes de ir de férias, e outro que é uma espécie de memória romanceada, ou pelo menos foi isso que me pareceu.
O primeiro foi o mais recente livro de Frederico Lourenço, um autor que começou a publicar tarde mas que tem sido pródigo. A Formosa Pintura do Mundo é uma colecção de contos, uns mais curtos do que outros, todos eles tendo como um certo subtexto a homossexualidade, mas sempre de uma forma muito subtil, e mais sugerida do que explícita. Além disso, e como se depreende do título, os contos têm uma componente visual muito forte, sobretudo através de referências à pintura. A música e a mitologia clássica são outros dos referenciais recorrentes dos textos. Eu sou fã da ficção do FL, e este livro não me decepcionou em nada, tanto mais que eu já conhecia um ou dois dos contos publicados. Fiquei surpreendido com o tom geral da escrita, ou melhor, mais com o tipo de narrativas: fatias de vida das personagens, como se o conto as apanhasse em mero trânsito, mas em que, como sempre acontece com o FL, a vida vai definindo o destino das personagens nos pequenos pormenores, nos acontecimentos mais subtis. Num certo sentido, fizeram-me lembrar as histórias do Raymond Carver, não no estilo, obviamente, mas nessa circunstância de como que apanharem as personagens a meio caminho. O livro prova mais uma vez uma coisa que é fabulosa na prosa do FL, e que é o modo como ele consegue ser ao mesmo tempo exuberante na linguagem (o vocabulário é quase luxuriante) e extremamente simples na estrutura e na construção das frases.
O outro livro é do Luís Amorim de Sousa, e intitula-se Crónica dos Dias Tesos. Talvez por causa do título eu fui para o livro à espera de uma colecção de crónicas, um pouco à imagem do que acontecia com o anterior livro do autor, Londres & Companhia (de quem já conhecia o volume de poemas, Ultramarino). O livro é antes uma memória romanceada, ou pelo menos assim mo pareceu, sobre os anos (finais de cinquenta e princípios de sessenta) durante os quais o autor esteve ‘down and out’ em Londres, sendo que os dias tesos do título se referem tanto à penúria financeira como ao permanente estado de excitação sexual do narrador (o livro é escrito na primeira pessoal do singular). Com efeito, o livro vai relatando, de forma alternada e por vezes concomitante, quer o estado de praticamente indigência em que o narrador vivia, num quarto alugado partilhado, sem ‘dinheiros’ no bolso para comer (até porque o pouco dinheiro que aparecia era prioritariamente canalizado para o tabaco e o vinho), quer os avanços, conquistas e também alguns recuos do narrador com a vizinha australiana, com a empregada do supermercado e com uma escultora divorciada. O livro é escrito num estilo muito seco, muito factual, que põe em destaque as peripécias da acção.