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9 songs
rosas
innersmile
Eu ia começar por escrever que 9 Songs, de Michael Winterbottom (o realizador de 24 Hour Party People) merece ser visto para além do escândalo das cenas de sexo explícito e da acusação, apesar de tudo maldosa, de que não é mais do que um filme pornográfico high profile. Mas se eu ia começar por escrever isto, a verdade é que não tenho bem a certeza de que haja muito mais filme para além das cenas de sexo entre Matt e Lisa. Quer dizer, haver há, o filme assenta em três pólos: as cenas de sexo entre o casal, as cenas relacionadas com o gelo relacionadas com a profissão de Matt, sejam elas a paisagem do deserto gelado da Antártida ou o laboratório onde se investiga o gelo; e, terceiro polo, as nove canções do título que decorrem em outras tantas cenas de concertos ao vivo.
Começando por estas, acho que foram o melhor do filme. Apesar do seu valor narrativo oscilar entre o óbvio e o ‘tanto podia ser esta como outra qualquer’, as cenas dos concertos, quer dizer dos oito concertos de bandas rock, já que a cena com o Michael Nyman pareceu-me um pouco estereotipada, estão muito bem filmadas, e acrescentam densidade à história (mesmo quando, como já referi, não tenham grande valor acrescentado do ponto de vista narrativo). Acho que, de certa forma, o realizador não retira muito partido dessas nove canções, apesar do inequívoco valor que elas têm, como se vê até pelo título do filme. Apesar de tudo, ou seja, apesar de serem o melhor do filme e apesar de darem espessura à história, o realizador nunca consegue resolver muito bem o seu papel no filme. Ou seja, a história do filme, ou se quisermos a verdade das personagens, não parece progredir em função das canções. As canções não contam a sua história, mesmo quando de alguma forma a ilustram. (Não quero armar ao pingarelho, mas uma vez escrevi um conto intitulado 4 Canções, em que as canções em causa não eram óbvias mas eram o verdadeiro motor da narrativa, elas contavam a história, narravam-na.)
Quanto ao gelo, parece-me uma metáfora (se chegar a tanto) um pouco fácil de uma certa derisão emocional, de uma certa secura, que acompanha o relacionamento entre as personagens.
Quanto ao sexo, dir-se-ia que o grande trunfo do filme era tentar filmar a intimidade sexual sem ceder à necessidade de afastar o olhar com pundonor assim que as coisas ficam um pouco mais hard. Mas o problema é mesmo esse: a partir de certa altura, e passada a surpresa inicial, começa a ser penoso assistir àquele crescendo de risco, sobretudo porque a ousadia não traduz qualquer ganho em termos de desenvolvimento dos caracteres das personagens. Não ficamos a conhecê-los melhor, a perceber melhor a sua verdade, aquilo que as guia. Não percebemos um sentido para aquela intimidade. Claro que se poderia dizer que esse é o sentido do filme, para mais com a metáfora do gelo a correr nos intervalos. Mas se for assim, então a pobreza ainda é mais franciscana, porque resulta um claro desequilíbrio entre o arrojo da proposta do filme e o produto final. E, ao não dar a perceber um sentido para aquela intimidade, é que o filme se torna pornográfico: não por causa do sexo explícito, mas porque, digamos, fica a faltar o sexo implícito.

Enquanto escrevo esta entrada, esta a passar no canal 2 da rtp 'O Fantasma', do João Pedro Rodrigues. Neste mesmíssimo momento, passa a famosa cena de sexo oral explícito na casa de banho pública. Ora, nem de propósito, cá está um caso em que a explicitação das imagens do sexo, ao invés de secar a verdade das personagens, contribui para tornar ainda mais denso, negro e impenetrante o seu mistério.


Edit: Para regstar dois filmes vistos hoje em dvd. Touch of Pink, realizado por Ian Iqbal Rashid, é uma comédia romântica que aborda, de forma ligeira, a questão das diferenças: de raças, de culturas, de sexualidades. Duas notas a distinguir: o facto de o casal central do filme ser gay e a forma honesta com que o tema é tratado; e o facto de uma das personagens centrais do filme ser o espírito de Cary Grant, brilhantemente criado pelo Kyle MacLachlan. Há momentos em que a composição chega a enganar o olho e julgamos mesmo estar a ver o próprio do CG.
O outro filme visto foi El Maquinista (sim, o filme é uma produção espanhola), realizado pelo Brad Anderson, e com o brilhantíssimo Christian Bale. Eu lembrei-me que ainda não tinha visto o filme a propósito do CB ter feito o Batman Begins, e fiquei muito impressionado. Claro, desde logo com o CB que neste filme parece um fantasma, um corpo que parece um daqueles mapas que têm os relevos do terreno, e uma composição absolutamente brilhante, um personagem ao mesmo tempo perturbado e perturbador. O filme está à altura do Bale, e é um exercício inquietante e cheio de suspense sobre a culpa, e a forma destruidora como ela, literalmente, nos consome.
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