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(no subject)
rosas
innersmile
E agora, para o post umbiguista deste Verão 2005!


É um dos poemas mais famosos de Carlos Drummond, e não admira, porque é um daqueles poemas que parece dizer tudo, que cristaliza de forma tão perfeita sentimentos e emoções que nem conseguimos nomear (e é essa a principal função da poesia, dar nome àquilo que não conseguimos traduzir em palavras). Lembrei-me ontem do poema a propósito de um comentário que pus no jornal de um dos meus amigos mais queridos e, apesar de todas as distâncias, íntimos, aqui do livejournal.
Nessa entrada esse meu amigo escrevia sobre um problema sério que aconteceu na sua vida e, apesar de toda a preocupação que eu sentia, na verdade eu estava cheio era de pena de mim próprio. Não tanto porque o dia me correu particularmente mal, mas porque ontem aconteceu mais um de uma série de acontecimentos que fizeram com que reaparecesse em força um dos meus maiores medos (e deus se existisse saberia como eles são muitos e todos grandes): o de que sou uma fraude, um inepto, um tipo 'descapacitado' para essa coisa comezinha da vida, da vida prática, da vida útil, da vida quotidiana. Ou seja, nas palavras do grande Drummond, o terror de, ao cabo e ao resto, «ser gauche na vida».
Esse medo é recorrente, como os nossos piores sonhos. Umas vezes ataca forte, outras vezes é mais subtil. Mas está sempre presente, é assim uma espécie daquele pano preto que se põe ao fundo dos palcos nos bailados ou nas peças em que não cenário: não se vê, mas na verdade é contra ele que se recorta tudo o resto que vemos. E atinge todos os aspectos da minha vida, profissionais, familiares, amorosos (neste caso, se eu tivesse vida amorosa, claro), sobretudo aqueles que são mais íntimos e secretos, e que têm a ver com aquilo que eu acho que está mais perto da essência do que eu sou (seja ela qual for...)
Voltando à vaca fria (os mais perspicazes verão neste gesto uma lide à vaca quente), de repente, ao escrever o comentário à entrada do meu amigo, o poema do Drummond cristalizou-se ali à minha frente: é isto, é mesmo isto que resume a minha vida, ou mesmo, na pior das hipóteses, quem sou: gauche na vida.
Como aqui não se alimenta a imprensa sensacionalista, não vou fazer um strip-tease integral ao som do poema do Drummond mas é um exercício aliciante descascar-me ao ritmo das sílabas, dos versos. Aviso já, porém, que não há prémio para o vencedor. Hoje, pelo menos.

POEMA DE SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


- Carlos Drummond de Andrade


E já que estamos com a mão na massa, e para tornar esta entrada mais longa e ilegível, cola-se já a seguir uma versão (uma versão?, não, não é uma versão, é mais uma variação) deste poema numa canção que o grande Chico Buarque fez lá nos idos dos anos 70. É uma das minhas canções preferidas do Chico, absolutamente genial, mas, ao lê-la agora para efeitos de concurso, tenho de a excluir por risco de auto-comprazimento em excesso, quiçá mesmo de overdose de auto-complacência.

ATE O FIM

Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim

Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim

Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim


- Chico Buarque